Music is my air


Já olhei para a vida dos dois lados, e mesmo assim... não sei nada da vida

A artista: Joni Mitchell, cantora, compositora, musicista e artista plástica canadense, nascida em 1943.


As canções: River, composta e interpretada por Joni Mitchell no álbum Blue (1971), também disponível na coletânea Hits (1996).
                    Both Sides Now, composta e interpretada por Joni Mitchell no álbum Clouds (1969), também disponível na coletânea Hits (1996); a regravação da mesma canção, com novo arranjo e acompanhamento orquestral, está no álbum Both Sides Now (2000) e também na trilha sonora do filme Love Actually (2003).


Os filmes: Simplesmente amor (Love actually, Reino Unido, 2003), escrito e dirigido por Richard Curtis, produzido por Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy.
                 Um grande garoto (About a boy, Reino Unido, 2002), escrito por Peter Hedges, Chris Weitz e Paul Weitz baseados no livro de Nick Hornby, produzido por Tim Bevan, Robert De Niro, Brad Epstein, Eric Fellner, Jane Rosenthal, dirigido por Chris Weitz e Paul Weitz.


A série: Anos Incríveis (The Wonder Years, EUA, 1988-1993), criada por Carol Black e Neal Marlens.


O livro: About a boy, de Nick Hornby (1998).


O dvd: Painting with words and music (EUA, 1998), show e entrevista com Joni Mitchell, produzido por John Brunton, dirigido por Joan Tosoni.



"It's coming on Christmas
They're cutting down trees
They're putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
Oh I wish I had a river
I could skate away on
(...)
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby cry"

(Joni Mitchell, River)

No filme Simplesmente amor há uma cena em que a personagem de Emma Thompson ouve uma música de Joni Mitchell chamada River, que fala de uma mulher triste na noite de Natal porque terminou seu relacionamento. Com versos como esses: "Gostaria de ter um rio onde pudesse patinar para bem longe daqui, um rio tão longo onde pudesse ensinar meus pés a voar bem alto...", a música ecoa o que está prestes a acontecer com a personagem. Aí o marido da personagem, interpretado por Alan Rickman (que dirigiu Emma Thompson no filme Momento de afeto -- The winter guest, um de meus filmes favoritos, mas isso é assunto pra outro blog), demonstra sua falta de sintonia com a mulher perguntando: "Você ainda escuta Joni Mitchell?" Claro que a pergunta é uma heresia, seria a mesma coisa que perguntar "Você ainda escuta os Beatles?", ou mesmo "Você ainda escuta Mozart?". Joni Mitchell, como todos os grandes artistas, é eterna, mas ainda há quem a identifique apenas com a folk music dos anos 60.



Tomei contato com a música da artista canadense através da série Anos incríveis (The Wonder Years), transmitida pela TV Cultura nos anos 90. Pra quem não sabe ou não se lembra, a série mostrava o cotidiano de um garoto chamado Kevin Arnold (Fred Savage), na difícil passagem pela adolescência, durante os turbulentos anos 60. Eu, que sempre fui fascinado por essa época que não vivi (afinal nasci no finalzinho dessa década), através da série fiquei ainda mais apaixonado, e tomei contato com muito do que era feito em termos de música naqueles anos. Joan Baez e Joni Mitchell eram frequentes na trilha sonora de Anos incríveis e isso bastou para despertar em mim um amor incondicional pelas duas cantoras folk.



De Joni Mitchell adquiri dois álbuns de coletânea da artista, um chamado Hits, reunindo os sucessos, e outro chamado Misses, com músicas que não fizeram sucesso mas estavam entre as favoritas da cantora. Os dois álbuns cobrem um período que vai do final dos anos 60 até os anos 90, sempre com Joni demonstrando sua voz cristalina, suas letras poéticas e confessionais, e seu talento de violonista e pianista. Depois disso adquiri um cd de Joni Mitchell chamado Both sides now, de 2000, em que a artista retrata um relacionamento amoroso desde o começo até o fim através de canções, onde apenas duas são de sua autoria. Confesso que fiquei um tanto chocado, ao ouvir esse álbum, com a mudança na voz de Joni, aqui muito mais soturna e grave, em alguns momentos lembrando Billie Holliday. Não gosto muito dos arranjos do álbum, onde Joni canta acompanhada por uma orquestra sinfônica, o que torna tudo muito pesado e meio redundante.



Mas esse mesmo álbum desempenha um papel importante no filme Simplesmente amor, na cena em que Emma Thompson, Alan Rickman e filhos trocam presentes de Natal. Emma espera ganhar do marido um colar de ouro, que ela sabe que ele comprou escondido, mas ao invés disso recebe o cd Both sides now. A personagem compreende na mesma hora que o colar era para a amante do marido, e vai para o quarto chorar, na cena mais comovente do filme, ao som justamente da voz grave de Joni Mitchell interpretando a canção-título do álbum, uma música que faz uma reflexão de alguém que já viveu "os dois lados" de um relacionamento e mesmo assim conclui não conhecer nada sobre o amor.

Joni Mitchell também desempenha um papel importante no livro About a boy, Um grande garoto em português, escrito por Nick Hornby (veja o post anterior). No livro o garoto Marcus adora Joni Mitchell, que ouve por influência da mãe, mas se sente marginalizado das outras crianças de sua idade que não têm a menor idéia de quem é Joni Mitchell e só escutam rock e rap americano. Com a ajuda de Will, um adulto imaturo que finge ter um filho para paquerar mães solteiras, Marcus aprende a gostar de outros estilos de música, principalmente Nirvana, a banda favorita da garota de quem gosta, Ellie. O detalhe é que Marcus não gosta muito de rock, mas se força a aprender a gostar para compreender melhor a garota por quem está apaixonado.

Quem viu a adaptação desse livro para o cinema certamente não sabe desses detalhes, já que os adaptadores simplesmente omitiram qualquer menção a Joni Mitchell ou a Nirvana no filme, embora ambos desempenhem papel fundamental no livro. É por essa e outras razões que eu afirmo que o filme Um grande garoto é medíocre, coisa que quem não leu o livro não consegue entender. O fato é que no livro o garoto Marcus, para ser aceito por seus semelhantes, acaba por renegar a admiração que tinha por Joni Mitchell, coisa meio triste, mas natural na adolescência, onde tudo o que queremos é ser aceitos. Espera-se que, terminado o romance, o garoto cresça e chegue ao estágio onde conclua que pode gostar de Joni Mitchell e de Nirvana ao mesmo tempo e não ter de pedir desculpas por isso.

Lembrei disso tudo ao assistir ao DVD Painting with words and music, um show de Joni Mitchell feito para a TV americana no final dos anos 90. Em grande forma, a cantora não só relembra algumas das canções que marcaram sua carreira como mostra um pouco de seu trabalho como artista plástica (as capas de quase todos os seus álbuns são de pinturas dela, principalmente auto-retratos), e ainda delicia a platéia com histórias divertidas e observações pertinentes sobre a sociedade, demonstrando sua inteligência e sua postura crítica. Em uma das histórias, por exemplo, a artista conta que conheceu Georgia O'Keeffe, pintora americana, que aos 90 anos lamentava nunca ter aprendido a tocar violino, porque nunca lhe disseram que alguém, especialmente uma mulher, pudesse ser pintora e violinista ao mesmo tempo. Joni Mitchell, uma artista "renascentista" em suas próprias palavras, nunca precisou que ninguém lhe dissesse o que ela podia fazer.


Both Sides Now
(JONI MITCHELL)

"Rows and flows of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
I've looked at clouds that way
But now they only block the sun
They rain and they snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way

I've looked at clouds from both sides now
From up and down, and still somehow
It's cloud illusions I recall
I really don't know clouds at all

Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way that you feel
As every fairy tale comes real
I've looked at love that way
But now it's just another show
And you leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know
Don't give yourself away

I've looked at love from both sides now
From give and take, and still somehow
It's love's illusions I recall
I really don't know love
Really don't know love at all

Tears and fears and feeling proud
To say "I love you" right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I've looked at life that way
Oh but now old friends they're acting strange
And they shake their heads
And they tell me that I've changed
Well something's lost but something's gained
In living every day

I've looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It's life's illusions I recall
I really don't know life at all

It's life's illusions I recall
I really don't know life
I really don't know life at all "


Texto publicado originalmente no blog Lost in the movies em 06/01/2004.



Escrito por will robinson às 17h24
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Digging...

A canção: You had time, composta e interpretada por Ani DiFranco no cd Out of range, 1994, gravadora Righteous Babe Records

O cd: Our little corner of the world (Music from Gilmore Girls), 2002, gravadora Rhino

O livro: Songbook (31 songs... and 15 albums), de Nick Hornby, Riverhead Books, New York, 2003

"Obscuras bandas européias de rock progressivo (...) foram uma fase. Uma entre muitas. Eu logo aderi ao punk da época [anos 70], o que me levou a explorar as bandas de garagem que deram origem ao punk nos anos 60, o que me levou ao pop mais melódico tipo The Zombies e The Kinks, o que me fez lembrar dos meus velhos discos dos Monkees, o que me levou a reavaliar o gosto musical de meus pais, o que me levou a Sinatra e música para coquetéis e musicais da Broadway com sua ênfase nas letras, o que me levou ao rap com sua ênfase nas letras, o que me levou a todos os tipos de música num interminável ciclo de mergulhar no passado sem abandonar o presente, lendo revistas especializadas, vasculhando lojas de discos, indo atrás de algo pra escutar, seja qual for sua forma.

Os personagens da série Gilmore Girls amam música como nós. Eles elogiam bandas que adoram e detonam bandas que odeiam. Eles sonham em tocar teclados para Siouxsie & The Banshees e guitarra para os Foo Fighters. Eles juram algo pela vida do vocalista do Blur ou pela alma da Nico, e tentam descobrir se seu mau-humor está mais para Nick Cave ou mais para Johnny Cash. Eles compram música e debatem música e avaliam a personalidade de alguém baseados somente na coleção de cds da pessoa (e quem não faz isso?). (...) Eles sâo proselitistas do pop, como qualquer amante de rock'n'roll, porque quando você ama uma banda ou uma música, você quer que os outros a amem também, você precisa que os outros a amem também, eles têm que amá-la também, ou então -- bem, ou então você tenta de novo outra hora com outra banda que você tem que compartilhar com eles. Uma vez que você entra nesse interminável ciclo de proselitismo, você não sai nunca mais. Não até que a palavra seja ouvida."
(DANIEL PALLADINO, "Digging", no encarte do cd Our little corner of the world, trilha sonora da série Gilmore Girls, tradução de will robinson)



A série Gilmore Girls, ou Tal mãe, tal filha, como foi batizada em português, tinha como tema o relacionamento quase fraternal entre mãe e filha (Lauren Graham e Alexis Bledel) que pareciam mais irmãs ou melhores amigas. A série, criada pela produtora e roteirista Amy Sherman-Palladino, tinha como principal atrativo seu texto extremamente bem-escrito e seus personagens leves e cativantes. Mas meu tema aqui não é exatamente a série. O que quero dizer agora é que, por gostar tanto dessa série, comprei o cd com a trilha sonora (que é bem legal, por sinal), infelizmente importada, por não ter sido lançada no Brasil. E no encarte encontrei essa pérola, escrita pelo roteirista e produtor da série (e marido da criadora Amy) Daniel Palladino. Com o título de "Digging", que literalmente quer dizer "cavando", mas no contexto significa algo como "indo atrás", o Daniel simplesmente conseguiu traduzir em palavras aquilo que eu sempre senti mas nunca soube explicar. Nunca soube o que dizer para as pessoas que entram na minha casa e ao ver o tamanho da minha coleção de cds, perguntam assustados: "Mas você é louco?!!!" Talvez eu seja louco mesmo, por gastar boa parte do meu salário em cds e dvds, em vasculhar lojas e lojas atrás dos cds mais raros, em procurar cds antigos em lojas de cds usados, em importar cds não lançados no Brasil, em pedir a amigos que façam o download de músicas mais inacessíveis na Internet [esse texto foi escrito quando eu ainda não dispunha de acesso próprio à Internet], em manter em bom estado minha coleção de LPs de vinil e minha vitrola para tocá-los, pelo simples fato de que muitos deles nunca foram lançados em cd. Deve ser loucura sim, mas uma loucura saudável, que me alimenta e me energiza, e faço questão de cultivá-la.

Pois encontrei uma alma gêmea igualmente louca por música no escritor inglês Nick Hornby. Quem leu seus romances Alta Fidelidade (High Fidelity) e Um grande garoto (About a boy), ambos adaptados para o cinema com resultado razoável no primeiro caso e medíocre no segundo, sabe do que estou falando. Hornby tempera seus livros com um amor pela música pop e um conhecimento sobre o tema que saltam aos olhos. Por isso, quando vi na livraria seu lançamento 31 songs, ou Songbook na versão em paperback (disponível em português como 31 canções), não pensei duas vezes.

Trata-se exatamente do que o título descreve: são ensaios sobre as 31 canções favoritas de Nick Hornby, por razões que tanto podem ser absolutamente pessoais quanto estéticas. Entre as canções citadas, as únicas que eu conhecia eram Thunder road de Bruce Springsteen e I'm like a bird de Nelly Furtado. Aliás, para quem estranhar a inclusão do sucesso descartável da canadense Nelly nesse livro, Hornby dá uma bela explicação, que termina assim: "Eu estava na sala de espera de um médico outro dia, e quatro garotinhas afro-caribenhas, esperando pacientemente a mãe terminar a consulta, de repente se puseram a cantar a música de Nelly Furtado. Cantaram com tanta perfeição, e com movimentos de dança tão graciosos, e com tanta alegria e apetite, e eu gostei que tivéssemos algo em comum, pelo menos temporariamente; senti como se todos vivêssemos no mesmo mundo, e isso não acontece com tanta frequência." (tradução de will robinson)

Quanto às demais 29, pedi a um amigo que tentasse fazer o download delas na Internet. Ele me fez um cd de dez músicas, sendo uma repetida na voz de outro cantor, outra que não estava na lista e as duas que eu já conhecia. [Tempos depois um casal de amigos me deu um belo presente: TODAS as canções do livro disponibilizadas em 2 cds!] Mas as seis que entraram de lucro já serviram pra dar uma idéia do ecletismo do escritor, e pelo menos uma delas, chamada You had time da americana Ani DiFranco, já entrou para a minha lista de canções inesquecíveis. Na verdade após ouvi-la eu me lembrei de que já a tinha escutado antes, na trilha sonora do belo filme Assunto de meninas (Lost and delirious).


 Como explica o próprio Hornby, "O que dá a You had time o seu valor é que, enquanto a maioria das canções sobre separação é triste e dolorosa, esta é sobre indecisão e inércia. A narradora acaba de voltar de uma turnê; seus dedos e sua voz ardem, então presumimos que se trata de uma cantora e violonista (perdoe-nos, Ani, se estivermos confundindo ficção e autobiografia). Fica óbvio que, enquanto estava viajando, a narradora deveria ter tomado uma decisão sobre continuar ou não seu relacionamento, e o título da canção [Você teve tempo] seria a previsível resposta de seu companheiro" [ou companheira, já que Hornby parte do princípio de que se Ani DiFranco é lésbica, sua personagem na música também deve ser, embora a letra não tenha nenhuma indicação disso]. "De qualquer maneira, a narradora teve tempo de pensar mas não chegou a uma conclusão... Embora nas entrelinhas fique claro que ela chegou, sim, a uma conclusão negativa, como indicam esses versos ternos e tristes: "Você é uma loja de porcelana e eu sou um touro, você é comida muito boa e eu estou satisfeita"... Não é generosa? Quantos de nós não gostariam de levar um pé na bunda com palavras assim? Mas a canção termina em suspense, com nada resolvido, e eu duvido que Ani DiFranco algum dia consiga escrever outra canção tão bonita e emocionante." O que ajuda a tornar essa canção tão bonita é que ela é tocada com apenas dois instrumentos: Há uma longa introdução no piano, depois entra a voz de Ani acompanhada apenas de um violão, e o piano se junta ao violão na última estrofe, o que levou uma amiga a quem mostrei essa música a indagar se isso não seria uma indicação de que os dois personagens continuariam juntos, apesar de tudo. Uma sutileza que escapou a Hornby.


Texto original publicado no blog Lost in the movies em 15/11/2003.



Escrito por will robinson às 18h34
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