Music is my air


O desafio musical de 250 dias - 2a parte

6 - Uma música da sua banda preferida

Banda preferida, tenho várias. Aquela que marcou minha juventude já usei nesse desafio (ver número 4). Então uso aqui aquela que provavelmente é minha banda inglesa preferida (na verdade uma dupla) entre as que permanecem na ativa com a mesma formação: os incríveis Neil Tennant e Chris Lowe, os Pet Shop Boys, que já tive o privilégio de assistir ao vivo por duas vezes.

 

 7 - Uma música que você ame a letra

Uma letra muito triste, mas muito verdadeira também.
"Para não viver só, garotas amam garotas, e alguns rapazes casam-se com rapazes. Outros têm filhos, crianças que serão ...sós como todas as crianças. Para não viver só fazemos catedrais, onde todos que são sós se agarram a uma estrela. Para não viver só fazemos amigos e nos reunimos com eles nas noites de tédio. Vive-se para o dinheiro, para os sonhos, para os palácios, mas nunca se ouviu falar de um caixão com dois lugares. Para não viver só, eu vivo com você, vivo minha solidão com você, você vive sua solidão comigo. Para não viver só, vivemos como aqueles que querem se iludir e pensar que não estão sós."

A música é de Sébastien Balasko e Daniel Fauré. A tradução é minha mesmo. Letra completa aqui. E aqui para saber mais sobre a grande cantora Dalida.

 

Uma interpretação mais recente da mesma canção, pelo jovem Allan Vermeer:

 

8 - Uma música que não tenha letra

Essa foi a mais difícil até agora. Talvez por minha formação em Letras e Jornalismo, por me considerar um profissional da palavra e não da música, tenho uma certa dificuldad
e em curtir música sem letra. Não que não seja capaz de relaxar ouvindo música clássica ou jazz instrumental, apenas considero esse tipo de música mais para isso mesmo -- relaxar -- que para ouvir prestando atenção e refletindo nas palavras, como é o caso das canções com letras. E justamente para não ser pretencioso e pseudo é que não vou escolher um compositor clássico ou um jazzista, e sim o roqueiro Sting, meu ídolo, que em seu primeiro álbum solo concebeu e nomeou seu disco com o título da única música instrumental do álbum, The Dream of the Blue Turtles -- a qual tem a vantagem de ser curta o bastante pra não encher o saco.

 

9 - Uma música que você odeie

Claro, seria muito fácil postar aqui um funkeiro pornô, um pagodeiro brega, um sertanejo bombado, uma gostosa do axé. Fácil demais. Por isso quebrei a cabeça tentando encontrar uma música que eu já tenha gostado no passado, que seja de alguém talentoso, mas que não aguente mais ouvir. E não é que tem várias? Uma delas é essa aqui, do Lionel Richie, o rei das músicas mela-cueca dos anos 80:

 

10-Uma música que você quer apresentar às pessoas

Ao contrário de algumas pessoas que gostam de guardar para si como tesouros preciosos as bandas e os cantores que poucos conhecem, e quando se tornam conhecid...
os os rejeitam, sou daqueles que gostam de compartilhar as coisas boas da vida (aliás, essa é a ideia por trás desse desafio), por isso já apresentei a vários dos meus amigos uma das minhas cantoras preferidas, a canadense Holly Cole. Essa música em particular também significa muito para mim o que é a verdadeira amizade: não é aquele que diz quando você está deprimido, "ah, deixa disso, vai dar tudo certo, vamos sair e dar umas risadas", e sim "pode chorar à vontade, gritar, arrancar os cabelos, não posso sentir o que você está sentindo mas entendo que dói tanto que você precisa chorar. Então, se é mais fácil comigo aqui, chore se quiser."  A letra completa aqui.

 Outra da Holly Cole, transformando o que era uma canção do desenho animado Mowgli, o menino lobo em belíssima e hipnótica canção de amor e sedução:

 

E essa foi a que despertou meu amor por essa cantora extraordinária:

 

 



Escrito por will robinson às 02h18
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O desafio musical de 250 dias - 1a parte

Brincadeirinha do Facebook que resolvi deixar registrada aqui no blog.

1 - Uma música que te lembre a sua infância

"Quem quer casar com a senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"

Quem foi criança nos anos 60 e 70 nunca vai esquecer da coleção Disquinho, com seus discos de vinil coloridos (no lugar do preto tradicional) e histórias infantis musicadas por Braguinha, o João de Barro. Essa foi a que mais marcou!

 

 2 - Uma música que você ache engraçada

A primeira vez que ouvi essa música ri tanto que me escangalhei!

 

3 - Uma música que te faça dançar

Abba ou qualquer outra coisa da música disco dos anos 70: Donna Summer, BeeGees, Gloria Gaynor, Tina Charles, Village People, são a única coisa que me põe pra dançar. Isso depois da 3a caipirinha, lógico. Se eu não dormir antes.

 

4 - Uma música que você saiba a letra toda

Já cantei até em karaokê, para desespero da alma do Renato Russo.

 5 - A música com um dos seus solos preferidos

Bem que a pergunta podia ser mais específica, adoro vários solos de vários instrumentos, mas decidi pelo solo de flauta de Alanis Morissette no começo e no final de sua belíssima canção. Imperfeito, meio desafinado, mas lindo!

Tá escrito lá na página do desafio: "Se você se acha o fodão, então dê mais músicas do que é pedido." Não é que me ache isso que tá escrito aí (a modéstia me impede de repetir), mas vou incluir mais um solo que adoro como bônus: o belíssimo solo de piano e teclados que introduz e depois acompanha George Michael em sua antológica interpretação da música de Elton John, Tonight. Infelizmente não sei o nome do pianista, se alguém souber por favor me informe!

 

 



Escrito por will robinson às 01h36
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You are beautiful. You are firework!

Muitos são os artistas americanos (e também ingleses, caso da Lisa Stansfield) que têm feito uma espécie de canções que poderiam até ser classificadas como música de auto-ajuda, se o próprio conceito de auto-ajuda não soasse tão desgastado e desacreditado, e com razão. Os artistas populares entre os adolescentes têm se esmerado em criar canções que estimulem a auto-estima de seus jovens fãs, e isso por um bom motivo: a quantidade assustadora de adolescentes americanos que têm cometido suicídio por não suportar o bullying de que são vítimas, em geral devido à sua orientação sexual. (Saiba mais sobre isso no Lost in Space.)

Em solidariedade a esses jovens, americanos ou não, gays ou não, vítimas de bullying ou simplesmente pessoas precisando de uma injeção de auto-confiança, resolvi reunir aqui alguns dos melhores exemplos dessa tendência, algumas bem recentes, outras nem tanto.

Firework - Katy Perry

(Ester Dean; Katy Perry; Mikkel Storleer Eriksen; Sandy Wilhelm; Tor Erik Hermansen)

"Não se sinta desperdiçando espaço, você é original e insubstituível! Se você soubesse o que o futuro lhe reserva... Depois de um furacão, vem um arco-íris!"

Who says - Selena Gomez and the Scene

(Priscilla Renea; Emanuel Kiriakou)

"Quem disse que você não é perfeito? Quem disse que você não vale a pena? Quem disse que é o único que sofre? Quem disse que você não é bonita, não é lindo? Quem disse que você não tem potencial, que não é presidenciável? Quem disse que não pode ser estrela de cinema? Quem disse?"

Beautiful - Christina Aguilera

(Linda Perry)

"Somos lindos, não importa o que digam! Palavras não podem nos derrubar. Somos lindos em todos os sentidos! Você não pode me derrubar."

The Real Thing - Lisa Stansfield

(Ian Devaney; Lisa Stansfield)

"Não vamos mais viver acorrentados. Não dou a mínima para o que as pessoas digam. Não há por que reprimir o desejo. Já queimamos os dedos, vamos pular no fogo! Vamos andar de mãos dadas. Deixe-os criticar, eles não entendem. Não temos nada a esconder, temos somente amor. Chega de sentir vergonha, vamos mostrar a cara e mostrar quem somos!"

 

E por fim a canção que se tornou o lema da auto-aceitação, principalmente em relação ao público LGBT, graças ao ativismo de sua intérprete, a grande Cyndi Lauper:

True Colors - Cyndi Lauper

(Tom Kelly; Billy Steinberg)

"Você com os olhos tristes, não fique com medo. Eu sei, é difícil ter coragem (...) e a escuridão dentro de você acaba por tomar conta. Mas eu vejo suas verdadeiras cores brilhando, e é por isso que eu te amo. Não tenha medo de mostrar suas verdadeiras cores, elas são lindas como um arco-íris."

Preste atenção nesse vídeo, extraído de um show da cantora, e veja o sinal que ela faz com a mão levantada e o punho fechado: é o mesmo sinal que os atletas negros americanos faziam quando havia segregação racial legalizada nos Estados Unidos, cada vez que ganhavam uma medalha olímpica e ouviam a execução do hino nacional de seu país. Em vez de pôr a mão direita sobre o coração, como a maioria dos americanos, eles faziam esse gesto para que o mundo entendesse que eram vítimas de discriminação em sua própria Pátria, que não eram considerados cidadãos em seu país. Quando Cyndi Lauper faz esse gesto em seu show, ao cantar True Colors, ela está dizendo o mesmo a respeito da população LGBT, a qual ainda não é tratada com todos os direitos de um cidadão de fato nos Estados Unidos. E não é à toa que Cyndi hoje tem a fundação True Colors, voltada exatamente à inclusão das minorias sexuais na sociedade. Saiba mais aqui.

Vamos então acender nossos fogos de artifício, mostrar nossas cores verdadeiras e sermos felizes!

Tradução das letras por will robinson

Atualização: Tinha faltado aqui uma representante brasileira! Então vamos lá:

Máscara - Pìtty

(Pittty)

"Tira, a mascara que cobre o seu rosto 
Se mostre e eu descubro se eu gosto 
Do seu verdadeiro jeito de ser 

Ninguém merece ser só mais um bonitinho 
Nem transparecer consciente inconsequente 
Sem se preocupar em ser, adulto ou criança 

O importante é ser você, mesmo que seja, estranho 
Seja você, mesmo que seja bizarro bizarro bizarro"

 

 



Escrito por will robinson às 20h20
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Sampa e João Gilberto

João Gilberto faz 80 anos esse mês. Não vou falar sobre o artista e sobre sua importância para a música. Há sem dúvida muita gente muito mais preparada e habilitada para fazê-lo. Em vez disso publico aqui um pequeno conto que escrevi há alguns anos para participar de um concurso do jornal O Estado de São Paulo em homenagem ao aniversário da capital paulista. Como o conto não foi selecionado, fica aqui disponível pela primeira vez.

POR CAUSA DE JOÃO GILBERTO

"E quem vem de outro sonho feliz de cidade

Aprende depressa a chamar-te de realidade"

(Caetano Veloso)

Uma névoa fina cobria a Paulista, enquanto caminhava. Luis apreciava aquele entardecer cinzento que o fazia se sentir em Londres, embora nunca tivesse ido a Londres. Na verdade, nunca havia saído de sua cidade interiorana antes daquele inverno, e fora um custo convencer sua mãe a deixá-lo vir a São Paulo para freqüentar aquele congresso de literatura.

E como valeu a pena, pensou, lembrando-se dos vários escritores que teve oportunidade de conhecer, de ouvir sobre seus processos de criação, ele que também ambicionava um dia ser escritor e poder falar sobre sua obra num evento como aquele.

No entanto, o que mais tinha valido a pena naquela viagem, o que motivava sua caminhada pela Paulista naquele domingo frio, não era nenhum escritor.

"De jeito nenhum você vai sair sozinho nessa cidade hostil para encontrar alguém que você mal conhece, que pode até ser um traficante ou um seqüestrador!", reagiu sua tia ao saber que ele ia encontrar um amigo que conhecera no tal congresso. E Luis nem mencionou que o amigo tinha quase o dobro de sua idade, não mencionou os olhos verdes nem João Gilberto, muito menos sua esperança de que o encontro não se resumisse em pegar um cinema.

Foi num dos intervalos do congresso que Luis o conheceu. Na cafeteria havia um telão que exibia clipes musicais, e de repente, logo depois de um clipe da Marina Lima, entra João Gilberto cantando "Sampa", em meio a imagens em preto e branco do centro da cidade. "Só mesmo em preto e branco pra não aparecer a sujeira daquele lugar", pensou Luis, quando então o rapaz a seu lado começou a falar entusiasmado de como João Gilberto era genial, como ele transformava em suas as palavras de Caetano, mencionando inversões, inflexões e sutilezas que Luis não entendia, tão absorto estava naqueles olhos verdes que davam vontade de mergulhar e se perder.

Luis não contou nada disso a sua tia, como também não contou que mentiu sua idade, aumentando-a de dezessete para dezenove para que Paulo não o achasse demasiado jovem. Não contou que em poucos dias já tinha a sensação de ter conhecido Paulo por toda a vida, e que os quinze anos a mais do amigo não faziam a menor diferença nas conversas sobre literatura, cinema, música e sobre a vida.

Se tivesse lhe contado tudo isso, provavelmente sua tia não o teria deixado sair de casa, temerosa que era dos perigos que se escondiam em cada esquina daquela cidade assustadora, na qual tinha vindo morar por causa do marido. Certamente ela teria dito que aquele homem levaria Luis ao "mau caminho", sem compreender que aquele caminho era o único que queria e podia percorrer.

E no entanto, enquanto esperava por Paulo em frente ao Center 3, contando os minutos no grande painel luminoso sobre o Conjunto Nacional, Luis deixou que o medo o assaltasse por um momento e começou a se questionar sobre o que estava fazendo ali, naquela cidade estranha, esperando por um homem que havia acabado de conhecer. E teve ímpetos de voltar para casa, não para a casa da tia mas para a sua casa, onde sua mãe o estaria esperando com um bolo recém-saído do forno e uma xícara de chocolate quente.

Mas quando avistou Paulo que vinha do metrô, quando o abraçou, sentindo o cheiro de colônia e excitado pelo roçar da barba por fazer em seu rosto, Luis teve certeza que, independentemente do desenrolar que tivesse aquele relacionamento, se é que aquilo seria um relacionamento, ele voltaria a São Paulo em muito pouco tempo, e dessa vez para ficar.

"E novos baianos passeiam na tua garoa

E novos baianos te podem curtir numa boa."

 



Escrito por will robinson às 02h41
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Garimpando

"Acho tão engraçado quando alguém diz "Hoje em dia não se faz mais música boa." Claro que se faz música boa, em qualquer tempo e lugar. Mas é preciso procurar. Você não vai achá-la nos programas de auditório ou nas rádios de grande audiência."

 

Postei esse comentário no Facebook, para introduzir o vídeo de uma música que adoro (Magrela Fever, de Curumin, interpretada por Miranda Kassin e André Frateschi, a qual aliás descobri através de uma rádio: a Rádio Santa Cecília aqui de Santos), e recebi a seguinte resposta de minha amiga Ana Paula: "No balanço geral não se faz mais musica boa na proporção que se fazia na década de 60, 70, 80. Tenho que discordar. A gente não precisava garimpar pra achar."

 

 

Bom, é verdade que nos anos 60 havia os programas musicais apresentados por grandes nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso e outros; nos anos 60 e 70 tínhamos os grandes festivais, que mobilizavam multidões e revelaram tantos talentos que estão aí até hoje; e mesmo nos anos 80, quando o cenário foi ficando mais difícil para a MPB (não estou falando de pop nem de rock), a Globo ainda produzia programas como o saudoso Chico e Caetano (que vi outro dia reprisado no Canal Viva), além de especiais de grandes cantores.

 

Sim, Ana Paula, por esse ângulo você tem razão. Hoje não temos mais os grandes festivais ou os programas musicais semanais apresentados por grandes nomes da MPB. Temos os programas de auditório, com aquela pobreza cultural de dar dó, e as grandes rádios que privilegiam os artistas que fazem sucesso junto ao grande público, entre sertanejos moderninhos, roqueiros coloridos e funkeiros saradões com suas mulheres-fruta. Então realmente a boa música, digna desse nome, não se encontra tão acessível como já foi um dia. Realmente, é preciso garimpar.

 

Mas será esse garimpo tão difícil assim? Hoje em dia, com a Internet e as redes sociais, quem procura acha. Por isso resolvi usar esse meu espaço para divulgar alguns sites, entre blogs, rádios e programas de tv, onde pode-se (ainda?) achar, sem grandes dificuldades, os novos talentos da música popular brasileira. Alguns eu já conhecia há tempos e consulto com regularidade; outros descobri agora, numa rápida pesquisa pelo Google, só pra comprovar o quanto a nova tecnologia pode tornar esse "garimpo" uma coisa muito fácil.

 

1 - Patrícia Palumbo

http://patriciapalumbo.com/

Conheço o trabalho da jornalista e radialista Patricia Palumbo desde o tempo em que ela apresentava um programa na extinta Rádio Musical, de São Paulo. Depois que a rádio se tornou evangélica, Patricia mudou-se para a Eldorado, onde está até hoje, apresentando o excelente Vozes do Brasil, vitrine de novos e antigos talentos da nossa música.

 

2 - DJ Zé Pedro

http://djzepedro.uol.com.br/web/texto/

O DJ Zé Pedro é conhecido não apenas por seu estilo extravagante mas também por colocar música brasileira nas pistas de dança. Em seu site, é possível encontrar textos excelentes sobre música e sobre novos talentos.

 

3 - Grêmio Recreativo

http://mtv.uol.com.br/programas/gremiorecreativo

Programa mensal apresentado por Arnaldo Antunes na MTV, em que o grande músico e poeta mistura novos e velhos amigos numa grande jam session deliciosa de se ver e ouvir.

 

4 - Revista Bravo!

http://bravonline.abril.com.br/blog/mpb/

A excelente revista cultural Bravo! mantém em seu site um blog exclusivamente dedicado a novos talentos da MPB.

 

5 - Som Brasil

http://sombrasil.globo.com/videos/

Sim, é verdade que a Globo esconde na madrugada da última sexta-feira (na verdade, manhã de sábado) do mês seu melhor programa musical em muito tempo, mas está tudo disponível na Internet, e alguns dos programas já foram inclusive lançados em dvd. Embora cada programa seja dedicado a um compositor consagrado, os artistas novos são a maioria dos intérpretes, e no site do programa há um blog dedicado a eles: http://sombrasil.globo.com/platb/novosartistas/

Patricia Pillar, que se reveza com Camila Pitanga na apresentação do Som Brasil

 

6 - Rádio Eldorado FM

http://www.territorioeldorado.limao.com.br/

A mesma rádio que apresenta o programa de Patricia Palumbo tem também o MPB Café Eldorado, disponível para audição no site da rádio: http://int.territorioeldorado.limao.com.br/eldorado/audios!getAudios.action?idPrograma=190

 7 - Julinho Bittencourt

http://revistaforum.com.br/julinhobittencourt/

Julinho Bittencourt é um músico bastante conhecido em Santos, que assina uma coluna semanal no jornal A Tribuna (através dessa coluna é que vim a conhecer A Banda mais bonita da cidade, cujo vídeo está aí embaixo) e também mantém um blog no site da revista Fórum.

8 - Nova MPB

http://novampb.com/webradio/

E essa eu descobri agora: uma web-rádio totalmente dedicada aos novos artistas da MPB.

 

Amigos, garimpem, aventurem-se, descubram vocês também diferentes maneiras de se manter atento e aberto às novidades!

 

E deixo vocês com outro novo talento da nossa música, com um vídeo que tem "bombado" na rede e por isso atraído a raiva de quem não suporta ver gente talentosa fazendo sucesso:

 

A banda mais bonita da cidade interpretando Oração, de Leo Fressato.

 



Escrito por will robinson às 04h03
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Ele cantou, cantou, e continua cantando, cantando

O artista: Cauby Peixoto Barros, nascido em Niterói, RJ, em 10 de fevereiro de 1931

 

"Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim"

(Chico Buarque, Bastidores)

O teatro Coliseu, um belíssimo e majestoso teatro de Santos de passado glorioso, que passou anos abandonado até ser restaurado e hoje ser o orgulho cultural da cidade, era o cenário perfeito para outro monumento, o grande Cauby Peixoto, que acaba de completar 80 anos.

 

 Cauby em participação recente no Som Brasil da Rede Globo, homenageando Chico Buarque.

 

Quem me visse entrando no teatro, como é fácil de imaginar lotado de cabecinhas brancas, ao lado de minha mãe, com certeza deve ter pensado que ela tinha me arrastado até ali contra minha vontade. Na verdade foi exatamente o contrário: minha mãe nunca foi muito fã do Cauby, e só aceitou me acompanhar até o show por dois motivos -- primeiro pra conhecer o teatro, segundo porque se tratava de um show em que Cauby cantaria o repertório de Roberto Carlos, esse sim uma unanimidade na minha família.

 

"E agora me aperta a aflição
De chorar louco e só de manhã
É a seta do arco da noite
Sangrando-me agora
São lágrimas, sangue, veneno
Correndo no meu coração
Formando-me dentro esse pântano de solidão"

(Guinga e Paulo César Pinheiro, Bolero de Satã)

Não me lembro exatamente como passei a gostar de Cauby, mas sei que foi muito cedo. Talvez por causa de sua participação em um disco de Elis Regina na belíssima canção Bolero de Satã, de Guinga e Paulo César Pinheiro; mas fiquei fã mesmo quando ele ressurgiu para o grande público com a música Bastidores, de Chico Buarque. Eu tinha um certo encanto por cantores de vozeirão, inclusive já gostava também de Agnaldo Rayol, e o encanto virou admiração quando a Globo fez um especial com ele em que a convidada de honra era ninguém menos que minha paixão de adolescência, Lucinha Lins, cantando com ele Purpurina, de Jerônimo Jardim, a música com que ganhou o primeiro lugar no Festival MPB Shell de 1981 (e também uma vaia homérica, já que o público preferia Planeta Água, de Guilherme Arantes). (Deixa eu dizer aqui que li uma entrevista recente de Cauby em que o mesmo desdenhava das cantoras que fazem sucesso hoje em dia, citando nominalmente Ivete Sangalo como alguém que não tem voz para acompanhá-lo num dueto, o que só aumenta o mérito da minha queridíssima Lucinha.) De certa forma eu já tinha um fascínio pela transgressão, pelo diferente, e tendo sido criado num lar machista e homofóbico, nada mais transgressor que ver aquele homenzarrão de bigode e tudo vestindo um monte de brilhos e entoando aquela canção que parecia ter sido feita de encomenda para ele:

"...Pode ser, mas eu sou feito bailarina,

se a ribalta se ilumina,

fico roxo pra dançar.

Pode ser, mas eu sou feito purpurina,

se uma luz não me ilumina,

não há jeito de brilhar."

(Jerônimo Jardim, Purpurina)

 E aqui você vai ver outro trecho desse especial, em que Cauby interpreta uma linda canção escrita especialmente para ele por Caetano Veloso, intitulada simplesmente Cauby Cauby.

Fast forward vários anos: alguns anos atrás fui assistir à premiada peça Cauby! Cauby!, de Flávio Marinho, em que um Diogo Vilela em estado de graça personificava o ídolo em suas várias fases. (Veja aqui um pequeno trecho de Cauby cantando junto com Diogo Vilela seu grande sucesso, Conceição, de Jair Amorim e Dunga, no Programa do Jô.) Nessa época o próprio Cauby não só continuava na ativa como lotava toda semana o tradicional Bar Brahma, em São Paulo. Me programei várias vezes com os poucos amigos que compartilham minha admiração pelo veterano cantor de ir vê-lo, mas por um motivo ou por outro nunca dava certo. Por isso quando o ídolo veio a Santos divulgar seu lindíssimo cd em homenagem a Roberto, não podia perder a chance -- e como aqueles tiozinhos que levam os sobrinhos ao cinema para ter uma desculpa de ver o desenho animado que adoram, tratei de levar minha mãe como pretexto!!

Já sabia que Cauby não estava mais no auge de sua forma física, mesmo assim me surpreendi, e pelo que observei a maioria do público também, com a fragilidade do cantor, que entrou e saiu do palco amparado por seus músicos, e cantou a maior parte do tempo sentado. Mas quando abriu a boca pra cantar, meu Deus... que voz! Lá estava sua belíssima voz, inteira, intacta, e mais do que isso -- cantando ainda melhor, sem os excessos que o caracterizavam antigamente, dando o peso certo e preciso de cada nota, de cada palavra. Um show maravilhoso e inesquecível.

 

 Cauby interpreta As flores do jardim da nossa casa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

 

Aos 80 anos, Cauby se recusa a parar, para felicidade dos que amam a boa música, e acaba de lançar um cd e dvd em que homenageia seu colega, o grande Frank Sinatra. (Veja aqui a canção Laura, de Johnny Mercer e David Raksin, interpretada por Cauby em seu mais recente show, acompanhado por meu amigo Kecco Brandão ao piano.) Que viva e cante ainda muitos anos, dear Cauby.

"Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim"

(Chico Buarque, Bastidores)



Escrito por will robinson às 04h41
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It don't matter if he was black or white

O artista: Michael Jackson, nascido em Gary, EUA, em 1958; falecido em Los Angeles, EUA, 2009


O filme: Michael Jackson's This is it (EUA, 2009)
Músicos do show: Orianthi Panagaris, Thomas Organ, Alfred Dunbar, Jonathan Moffett, Michael Bearden, Morris Pleasure, Roger Bashiri Johnson, Dorian Holley, Judith Hill, Darryl Finnesse, Ken Stacey.
Produção: John Meglen, Travis Payne, Randy Philips
Direção: Kenny Ortega


 

"Like a perfect flower that is just beyond your reach
Gone too soon
Born to amuse, to inspire, to delight
Here one day, gone one night
Like a sunset dying with the rise of the moon
Gone too soon
Gone too soon."
(Larry Grossman, Buz 'Buzzie Wuzzie' Kohan, Gone too soon)


Assim como quase todo o mundo, lembro exatamente onde estava e o que estava fazendo quando tive a notícia da morte de Michael Jackson. Estava fazendo um lanche na cantina da escola onde trabalho, entre uma aula e outra, quando uma funcionária comentou: "Michael Jackson morreu." Na hora achei que ela estivesse brincando e não dei maior importância ao fato. Quando cheguei na sala de aula, todos os alunos comentavam sobre a notícia, ainda não confirmada -- àquela altura sabia-se apenas que o astro pop tinha dado entrada num hospital e estava inconsciente. Quando saía da escola, a TV de plasma que tem na entrada exibia o Jornal Nacional, onde a Fátima Bernardes anunciava, solene: "Acaba de ser confirmada a morte do cantor Michael Jackson".

Que posso dizer sobre Michael Jackson que já não tenha sido dito e repetido à exaustão nesse dia em que se relembra um ano da morte dele? Posso apenas prestar meu testemunho de alguém que teve o privilégio de viver sua adolescência nos anos 80, os anos pop por excelência.

Em 1982, logo após meu aniversário de 15 anos, minha família se mudou da casa onde morávamos desde que eu era um bebê, no bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, para um apartamento na região central da cidade. Enquanto morávamos numa casa, eu dividia um quarto com meu irmão mais novo, mas no novo apartamento eu tinha direito a um quarto só meu, o que para um adolescente significa uma enorme conquista de privacidade. Era uma época de descobertas, não só as descobertas próprias da idade, mas um monte de experiências inéditas em minha vida: era a primeira vez que morava num apartamento, a primeira vez num andar alto, com janela que dava para várias outras janelas em vários outros prédios e a Via Anchieta ao longe, o que estimulava sobremaneira minha imaginação adolescente, imaginando as vidas que se desenrolavam naquelas janelas iluminadas e naqueles carros que passavam ao longe, e me fazia ter vontade de escrever sobre isso, despertando meu lado escritor. Era também a primeira vez que tomava ônibus para ir à escola (antes podia ir a pé), o que aumentava minha noção de independência e de auto-estima. Também foi nessa época que comecei a estudar inglês numa escola de idiomas, sem desconfiar que faria dessa língua a minha profissão.

Mas talvez a descoberta mais estimulante foi o fascinante mundo da rádio FM. Antes eu tinha um radinho de pilha AM, onde ouvia basicamente MPB, o mesmo tipo de música que meus pais gostavam e ouviam em casa. Ao completar quinze anos ganhei um walkman com rádio FM, e todo um novo mundo musical se abriu ante meus olhos -- ou meus ouvidos, para ser mais exato. Passei a ouvir a música pop que os jovens da minha idade ouviam e curtiam, e isso justamente na época em que estouravam as novas bandas do rock brasileiro, começando pela pioneira Blitz, cujo mega-sucesso Você não soube me amar tocava todos os dias em primeiro lugar no hit parade das mais pedidas, que eu costumava ouvir no rádio do carro da minha mãe, no final da tarde, quando ela trazia eu e meu irmão da aula de natação, que era no município vizinho de Santo André. Como filho mais velho tinha o direito de sentar no banco da frente, e por isso tinha o direito de monopolizar o rádio do carro (para desespero do meu irmão, diga-se de passagem), e esperava ansiosamente o momento de tocar duas músicas em especial: o sucesso de Evandro Mesquita e sua banda, e um dueto entre Paul McCartney, cantor que eu já amava, sendo desde sempre um grande fâ de Beatles, e uma nova voz de alguém que eu não conhecia e que se chamava Michael Jackson. A música se chamava The girl is mine e foi o primeiro sucesso a tocar no rádio daquele que se tornaria o disco mais vendido de todos os tempos, o histórico Thriller.



 

Provavelmente nessa época já devia ter ouvido algum sucesso do Michael Jackson criança, como Ben (adoro tocar essa música para meus alunos, cuja letra fala de amizade, e depois revelar que foi feita para um filme sobre um rato assassino!), bem como seus sucessos do tempo do Jackson Five, mas não conhecia sua história e não ligava o nome à pessoa. Acho que o primeiro video-clipe dele que assisti na TV foi o sensacional Billie Jean, com o chão de ladrilhos que se acendiam quando Michael pisava neles, sem saber que o jovem cantor estava fazendo história ao criar o próprio conceito de music video, ou video-clipe como chamamos por aqui. Não lembro se já tinha visto o filme West Side Story (Amor, sublime amor), que é hoje o meu filme musical favorito, quando vi o clipe de Beat it, totalmente baseado no filme, mas lembro da repercussão que teve o clipe de Thriller, baseado no filme Um lobisomem americano em Londres, um filme cultuado pelos jovens naquela época por ter sido um dos primeiros a reunir terror e humor, e também pelos ousados efeitos especiais. Thriller, o vídeo, representou uma revolução no conceito de como mostrar uma canção em formato audio-visual, e não é à toa que muitos o consideram como o melhor music video de todos os tempos.




Com o tempo as esquisitices de Michael foram tomando o espaço na mídia que antes era só dedicado ao seu talento. A autópsia revelou que o cantor tinha mesmo vitiligo, a doença de pele responsável por seu embranquecimento, mas eu tenho orgulho de ter sempre defendido o direito de Michael mudar sua aparência como bem entendesse, afinal se eu defendo o direito de uma pessoa mudar de sexo, como não posso admitir que ela queira mudar seu tom de pele? Nunca achei que isso fosse uma rejeição de sua raça, pois em seus vídeos e discos Michael sempre fez questão de trabalhar com grandes talentos afro-americanos, de Quincy Jones a Eddie Murphy, e a resposta perfeita veio na letra de seu sucesso Black or white: "But if you're thinking about my baby, it don't matter if you're black or white." (Mas pensando em meu amor, não importa se é branco ou negro.) E o rap de Bill Bottrell reiterava: "I'm not going to spend my life being a color." (Não vou desperdiçar minha vida sendo apenas uma cor.) Michael não era apenas uma cor, assim como não era menino nem homem, nem macho nem fêmea, nem hetero nem gay. A prova disso é que seus sósias podem ser de todas as cores, de todas as idades, de ambos os sexos. Na TV, pode ser representado tanto pelo negro Hélio de la Peña, com o rosto pintado de branco, no programa Casseta & Planeta Urgente, como pela branca Denise Fraga, no extinto TV Pirata. Michael encarnava o ser humano em todas as suas formas.

Se Michael não mentia sobre sua doença, talvez não estivesse mentindo também ao alegar inocência diante das acusações de pedofilia que tanto mancharam sua reputação. Mas mesmo que fosse culpado, nunca consegui vê-lo como um monstro, e sim como uma vítima de si mesmo e da educação que teve, uma criança que não cresceu, aprisionada num corpo de adulto, um adulto que desfrutava de uma fama planetária e de uma riqueza imensurável e que não sabia lidar nem com uma coisa, nem com a outra. De qualquer forma, talvez nunca se saiba a verdade sobre esse assunto, e isso só deve interessar agora aos seus familiares e às suas supostas vítimas. A nós, fãs, cabe relembrar o extraordinário talento que perdemos há um ano.



 

Não tive oportunidade de ver o show de Michael Jackson quando ele se apresentou no Brasil, mas pelo menos uma vez na vida ocupei o mesmo espaço e tempo que ele. Explico: quando Michael voltou ao Brasil para realizar o clipe de They don't care about us, com cenas gravadas no Pelourinho, em Salvador, e no Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, eu estava fazendo uma conexão no aeroporto de Salvador, quando todos os vôos foram suspensos e todos os portões fechados para que o astro pop pudesse embarcar em seu jatinho a caminho do Rio de Janeiro.

Não vi o show ao vivo mas fiz questão de ir ver o documentário póstumo This is it, sobre os bastidores do show que ele estava ensaiando quando morreu e que marcaria sua despedida dos palcos para sempre. Pelo que o filme (que será exibido pela Globo neste domingo) mostra seria um show grandioso, e Michael no comando dos ensaios demonstrava toda a majestade de Rei do Pop, título que conquistou com merecimento. Tratando os músicos e a equipe técnica com gentileza e educação, usando a palavra love o tempo todo, mas ao mesmo tempo com o pulso firme de quem sabe o que quer e é perfeccionista ao extremo, Jackson demonstrava técnica e profissionalismo, mas também aquele talento e aquele carisma que o tornaram rei, e que não morrerão jamais, pois estarão sempre presentes em sua música.

"Heal the world
Make it a better place
For you and for me and the entire human race
There are people dying
If you care enough for the living
Make a better place
For you and for me."

(Michael Jackson, Heal the world)


 



Escrito por will robinson às 02h20
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Por um eterno e novo verão vermelho

Os cds:

Trilha do musical original: Spring Awakening - a new musical
Compositores: Steven Sater (texto e letras), Duncan Sheik (música), inspirados na peça Frühlingserwachen de Frank Wedekind
Intérpretes: Jonathan Groff (Melchior), Lea Michele (Wlenda), John Galagher Jr. (Moritz), Lauren Pritchard (Ilse), Lilli Cooper (Martha), Jonathan B. Wright (Hanschen), Gideon Glick (Ernst), Phoebe Strole, Remy Zaken, Brian Charles Johnson, Skylar Astin, Gerard Canonico, Jennifer Damiano, Robert Hager, Krysta Rodriguez, e com Christine Estabrook e Stephen Spinella como os adultos
Músicos: Kimberly Gribsby (direção musical e teclados), Thad DeBrock (guitarra), George Farmer (baixo), Trey Files (bateria), Ben Kalb (violoncelo), Olivier Manchon (violino), Hiroko Taguchi e Danielle Farina (viola), Simon Hale (harmônio)
Arranjos: Duncan Sheik, Simon Hale e AnnMarie Milazzo
Produção: Duncan Sheik
Gravadora: Fascination/ Decca Broadway/ Universal




Trilha do musical em versão brasileira: O Despertar da Primavera - o musical (Spring Awakening)
Compositores: Steven Sater (texto e letras), Duncan Sheik (música), Claudio Botelho (versão brasileira, letras em português), baseados na obra de Frank Wedekind
Intérpretes: Pierre Baitelli (Melchior), Malu Rodrigues (Wendla), Rodrigo Pandolfo (Moritz), Leticia Colin (Ilse), Thiago Amaral (Hanschen), Laura Lobo (Martha), Felipe de Carolis (Ernst), Julia Bernat, Estrela Blanco, André Loddi, Bruno Sigrist, Pedro Sol, Danilo Timm, Thiago Marinho, Davi Guilherme, Lua Blanco, Eline Porto, Alice Motta, Mariah Viamonte, e com Debora Olivieri e Carlos Gregório como os adultos
Músicos: Márcio Castro (regência e teclado), Marcio Romano (percussão), Thiago Trajano (guitarra e violão), André Dantas (violão e guitarra), Anderson Pequeno (violino), Jocelyne Cardenas (viola), Saulo Vignoli (cello), Omar Cavalheiro (baixo elétrico e acústico), Marcelo Castro (direção musical)
Arrranjos: Duncan Sheik, Simon Hale e AnnMarie Milazzo
Produção: Divina Comédia e Aventura Entretenimento


 

"Primavera
Quanto tempo faz?
Tanto tempo atrás
Tantas as manhãs, sim
Quando o sol brilhou
Sobre os livros soltos no chão
Primavera..."

(Steven Sater, Duncan Sheik, Claudio Botelho, Vento triste - Blue wind)


Sou um fanático por musicais, mas desde Rent não ficava tão obcecado por um musical quanto estou agora por O Despertar da primavera. Sobre Rent já falei em outro blog, mas um rápido resumo: tudo começou quando ouvi a canção Seasons of love numa peça que reunia vários momentos musicais de peças da Broadway, e fiquei apaixonado pela música. Aí uma amiga me emprestou o cd com a trilha original, que levei pra casa, pus pra tocar enquanto acompanhava o encarte com as letras, e quando terminou o cd eu estava em prantos -- nunca vou me esquecer disso.

Mas se com Rent eu descobri a música sem ter visto a peça, e só muito tempo depois saiu  o filme e aí sim pude ver a história completa, com O despertar da primavera fiz o caminho mais comum, que é ver a peça primeiro. Na verdade o texto original é do alemão Frank Wedekind, escrito no fim do século XIX mas só encenado quase um século depois, tamanha a ousadia do texto que fala basicamente do despertar da sexualidade em jovens adolescentes, sem fugir de temas-tabu como masturbação, homossexualidade, incesto, gravidez precoce, aborto e suicídio. Eu já conhecia a peça, que tinha visto em uma montagem do texto de Wedekind, mas quando soube que um musical estava sendo encenado com base nessa peça fiquei com muita vontade de assistir, não só porque tinha gostado muito da história mas também pelos talentos envolvidos: o cantor e compositor Duncan Sheik, de quem eu já era fã, era o responsável pelas músicas, e a dupla Charles Möeller-Claudio Botelho, responsável por tantas montagens impecáveis de musicais no Brasil, assinava a versão brasileira, o que representava uma garantia de qualidade.


 

Acabei indo ver a peça no penúltimo dia da temporada paulista no Teatro Sérgio Cardoso (leia o que achei da peça no Lost in Space), o que foi uma pena, pois agora morro de vontade de revê-la e fico torcendo por uma vaga promessa de que se conseguir patrocínio o musical ainda tem alguma chance de voltar ao cartaz. (Atualização em 22/08/10: graças aos deuses do teatro o patrocínio veio, a peça voltou e acabei indo vê-la mais duas vezes, para minha felicidade!) Mas para meu consolo o elenco brasileiro gravou a versão em português das canções da peça em cd, e claro que eu também não ia deixar de comprar a versão original, e tenho ouvido as duas trilhas, obsessivamente, desde que pus as mãos nos discos. (Você pode fazer o download gratuito do cd brasileiro aqui.)

Embora eu já tenha passado há algumas décadas da fase da puberdade, é uma época tão marcante da vida que é impossível que não deixe marcas para a vida toda, algumas boas, outras nem tanto, e algumas dessas marcas são bem difíceis de serem apagadas ou mesmo superadas. As canções de Duncan Sheik e Steven Sater, além de extremamente poéticas e bem-elaboradas, vão direto ao ponto, e algumas chegam a abrir feridas que se pensava cicatrizadas.

Claudio Botelho, autor das letras em português, confirma a sua fama de grande autor de versões. Ele consegue manter a essência do texto original e ao mesmo tempo acrescentar uma poesia toda própria, tornando até algumas das canções (na opinião de alguém que, modéstia à parte, conhece bem o idioma inglês e pôde comparar as duas trilhas sonoras) ainda mais poéticas  e mais emocionantes que as letras originais de Steven Sater. Na canção Não tem tristeza (Don't do sadness), cantada por um dos personagens momentos antes de cometer suicídio, é impossível não se comover com esses versos:

"Lá vou eu
Não tem tristeza - pra mim
Não existe mais
Já nem sei onde é que dói
Já não me machuca mais
Não tem tristeza
Já passou pra mim
Já provei e abusei
Eu me lambuzei

Não tem tristeza
Eu gastei
Da tristeza eu passei..."


Para alguém que sabe exatamente do que o personagem está falando, para alguém que em determinado momento da vida também já viveu a sensação de ter passado da tristeza e atingido outro patamar, um estágio no qual a escuridão e o nada parecem alternativas muito melhores do que o que se está vivendo, é dilacerante ver essa sensação transformada em palavras e em música, e de forma tão bela.

Outro momento por demais emocionante pra mim, que perdi um ente querido há não muito tempo, é a canção Velhos conhecidos (Those you've known), no qual os dois personagens que perdem a vida de forma trágica na peça voltam literalmente de seus túmulos para impedir que o protagonista, Melchior, siga o mesmo caminho deles:

"Now they'll walk on my arm through the distant night
And I won't let them stray from my heart
Through the wind, through the dark
Through the winter light
I will read all their dreams to the stars

I'll walk now with them
I'll call on their names
I'll see their thoughts are known

Not gone
Not gone
They walk with my heart
I'll never let them go
I'll never let them go
I'll never let them go

You watch me
Just watch me
I'm calling
I'm calling
And one day all will know..."


E da mesma forma que Melchior vai para sempre carregar dentro dele seus amigos, mortos em consequência da incompreensão e da intolerância dos adultos diante da rebeldia e da sensualidade dos jovens, também eu fico com a sensação de que carregarei dentro de mim, pra sempre, esses personagens criados há tanto tempo -- Melchior, Wendla, Moritz, Martha, Ilse, Hanschen, Ernst -- mas que são imortais, pois representam a força e a fragilidade de quem quer apenas compreender, amar e ser feliz.

"O que era dor
Ficou lá atrás
Na nossa primavera
Que já não volta mais

Janelas vão se escancarar
E vai entrar a chuva
E as crianças vão dançar
E vão viver por nós
E vão soltar os nós
E vão cantar em todas as manhãs
Vão rezar

Por um eterno e novo
Vão pedir
Por um verão vermelho

Um eterno e novo
Verão vermelho"

(Steven Sater, Duncan Sheik, Claudio Botelho, Canção de um verão - The song of a purple summer)

 

The word of your body, canção do musical, interpretada por Matthew Luke Sandoval em vídeo caseiro porém lindo e delicado, a um tempo sensual e sensível.

 



Escrito por will robinson às 02h44
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Ainda sobre Renato

Uma amiga me mandou o texto abaixo por e-mail. O texto é tirado do site do escritor, tradutor, chargista, multi-facetado Millôr Fernandes. A música eu já conhecia e já amava, não estivesse ela no meu disco preferido da Legião Urbana, As Quatro Estações. A tradução de Millôr consta do encarte do disco, mas assim como Millôr, nunca entendi direito porque Renato, que falava e cantava em inglês fluente, precisava de um tradutor profissional pra traduzir seu próprio poema-canção para o português. Talvez procurando um distanciamento que ele próprio não conseguiria. Talvez seu envolvimento emocional com o poema, e com o tema do poema, fosse tão profundo que o levou a escrevê-lo em inglês justamente para guardar uma certa distância, agora que sabemos que também ele, como Cazuza a quem a canção é dedicada segundo Millôr (outro fato que não sabia, eu que sempre achei que a intimidade inclusive sexual expressa na letra se referisse a algum ex-namorado do autor), sabia que a morte viria, como virá para todos nós, mas para ele veio cedo demais, lenta demais, dolorosa demais.

 

 

 

 

 

 

 

 

Renato Russo

Legião Urbana. Renato Russo. Esta é minha relação com ele.

Meu cartaz aumentou muito com a galera da faixa etária entre 15 e 20 anos, depois que Renato Russo me citou duas vezes em seus shows, como guru não sei de quê. Não muito tempo depois, José Costa Netto, meu advogado e agente de direitos autorais, me telefonou dizendo que Russo queria que eu - profissionalmente - traduzisse um poema (musical) dele. Recusei, achando que fosse tradução do português pro inglês. Não acredito em quem faz traduções pra outra língua que não a sua. ("Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo, tradução pro inglês feita por ele mesmo, tradução que não li, mas me dizem excelente, é exceção. Mas com maluco não só não se discute como é melhor não estabelecer regras).

De pura curiosidade pedi pra ler o poema. Minha estranheza foi enorme - o poema, dedicado a um grande amigo dele, Cazuza, era denso, misterioso, cheio de sub-intenções, e em excelente inglês. Como uma pessoa que escrevia inglês assim me pedia para fazer a tradução? De qualquer forma topei traduzir, depois que o agente combinou o preço, altamente profissional. Altamente profissional, também, Renato Russo não hesitou diante do preço, bem, os da Legião Urbana não sabiam se o último show deles tinha 10 ou 60.000 espectadores.

Traduzir o poema era tarefa delicada, a começar pelo título "Feed-back for a dying young man". Qualquer tradutor desprevenido não perceberia que feed-back aí era um jogo de palavras entre o retorno emocional que o poeta fazia, com o retorno musical comum na música grupal - quando um músico "solicita" a resposta do outro, tipo jam session. A palavra podendo significar ainda retorno de som, aquele que dá microfonia. E seria lamentável traduzir dying por moribundo, palavra que indica instantes finais e soturnos, e não, como alguém à morte, morte esperada mas sem tempo definido pra chegar, a palavra conservando ainda o lastro romântico das damas das camélias.

Porém, traduzido o poema, sendo o poema audacioso e seu autor vivo, entrei em contato com ele para aprovação. Renato não corrigiu uma palavra. Apenas, aqui e ali, murmurava, perplexo e escandalizado: "Deus, do céu, eu escrevi isso?", confirmando a minha tese de que não há bilingüe. Só quando ouviu em sua própria língua o que tinha escrito em inglês, Renato percebeu a audácia do que dizia. Do lado de cá o surpreendido era eu. Com toda razão tendo opinião não muito lisonjeira a respeito do nível intelectual da maioria dos roqueiros, fui ficando admirado com a sutileza e justeza das observações de Renato e da perfeição com ele citava coisas em inglês - incluindo Shakespeare. Seu inglês era, definitivamente, melhor do que o meu. Até hoje não entendi porque me pediu a tradução. O poema foi incluido num de seus últimos CDs.

CANÇÃO RETORNO PARA UM AMIGO À MORTE

Alisa a testa suada do rapaz
Toca o talo nu ali escondido
Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente
Então seus olhos castanhos ficam vivos
Antes afago pensava ele era domínio
Essas aí não são suas mãos são as minhas
E seguras, minhas mãos buscam se impor
Todo conhecimento do jorro viril do meu senhor
O gosto perfumado que retém minha língua
É engano instalado e não desfeito
Seus olhos chispantes podem retalhar minha pele bárbara
Forçar toda gravidade a ir embora
Ele vadeia em águas fechadas
Sono profundo altera seus sentidos
A meu único rival eu devo obedecer
Vai comandar nosso duplo renascer:
O mesmo
Insano
Sustenta
Outra vez.
(os dois juntos junto de nossos próprios corações)
Calei e escrevi
Isto em reverência
Pela coincidência

PS. Arthur Dapieve tem um excelente livro sobre Renato. "Renato Russo, o Trovador Solitário" (Relume Dumará, 183 pgs., Coleção Perfis do Rio de Janeiro. 2000).

FEEDBACK SONG FOR A DYING FRIEND
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) © 1985

Soothe the young man's sweating forehead
Touch the naked stem held hidden there
Safe in such dark hayseed wired nest
Then his light brown eyes are quick
Once touch is what he thought was grip
This not his hands those there but mine
And safe, my hands do seek to gain
All knowledge of my master's manly rain
The scented taste that stills my tongue
Is wrong that is set but not undone
His fiery eyes can slash my savage skin
And force all seriousness away
He wades in close waters
Deep sleep alters his senses
I must obey my only rival -
He will command our twin revival:
The same
Insane
Sustain
Again
(The two of us so close to our own hearts)
I silenced and wrote
This is awe
Of the coincidence

Renato Russo era um cara tão incrível e genial que podia contar entre seus admiradores tanto um intelectual extremamente ácido e crítico como Millôr Fernandes quanto o ídolo pop latino recém-saído do armário Ricky Martin. Este fez uma linda versão para a soturna e bela A Via Láctea, música que já citei e linkei no post anterior, e conseguiu o que parecia quase impossível para quem conhece o original: transformar o canto-do-cisne de Renato, basicamente uma canção sobre a proximidade da morte e a inutilidade de qualquer tipo de conforto diante dessa certeza, num hino de esperança diante da adversidade, que o lindo Ricky canta abrindo um maravilhoso sorriso de alguém que ama a vida. Confiram:

 

Ricky Martin canta Gracias por pensar em mi, sua versão em espanhol para A via láctea, de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá.

 



Escrito por will robinson às 02h44
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Estou acordado e todos dormem

"E quem um dia irá dizer, que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

E quem irá dizer que não existe razão?"

(Renato Russo, Eduardo e Mônica)


É com essa citação de Renato Russo à maneira de epígrafe que começa "O gosto amargo do seu corpo", meu único conto já publicado, na coletânea Triunfo dos pêlos e outros contos gls, publicado pelas Edições GLS e disponível para compra na Livraria Cultura e nas boas casas do ramo. Na verdade a influência de Renato Russo nesse meu trabalho já está presente no próprio título do conto, tirado da canção Daniel na cova dos leões.



O conto narra a história de um triângulo amoroso formado por três adolescentes, sendo que o protagonista é um garoto ainda incerto quanto à sua sexualidade que se apaixona ao mesmo tempo pela melhor amiga e pelo namorado dela. De maneira proposital, emprestei ao narrador/protagonista algo de minha própria história, como o fato de ambos termos nos mudado de São Bernardo do Campo para Santos ainda na adolescência, e o criei um tanto parecido comigo na personalidade e na aparência, além de deixá-lo sem nome, com o objetivo de criar uma certa confusão na cabeça das pessoas entre autor e personagem. Me senti recompensado quando até meus amigos mais próximos vieram me perguntar se a história narrada no conto era autobiográfica. Na verdade a história é totalmente fictícia, mas uma das características do personagem que confundiram as pessoas era o fato de ele se identificar com as canções da banda Legião Urbana e se refugiar nelas para tentar entender seus próprios conflitos. O conto é inclusive pautado por citações de músicas da banda que dialogam com a história e ajudam a esclarecê-la.


A maioria das pessoas que me conhece sabe que Renato Russo é um de meus ídolos mais reverenciados e que tenho tudo que se relaciona com ele ou com sua banda, mas o que muitos não sabem é que essa admiração, ao contrário do que acontece ao meu personagem, não começou exatamente na adolescência.


Fui um adolescente dos anos 80, portanto acompanhei de perto a história de todas as bandas e cantores que surgiram naquela época e que fizeram a história do rock brasileiro. Se na minha infância aprendi a gostar de MPB graças à coleção de discos de meus pais, que adoravam Roberto Carlos, Gal Costa, Elis Regina, Clara Nunes e Maria Bethânia, entre outros, na adolescência ganhei um walkman que tinha rádio FM (se você tem menos de vinte anos, pergunte a seu pai o que é walkman), e a partir daí o fantástico mundo da música pop se abriu para mim. Imediatamente me tornei um fâ incondicional de Michael Jackson, e entre as bandas brazucas que surgiam na época, me interessei mais pelo rock engraçadinho da Blitz, pelas baladas roqueiras de Lobão e Marina, e pelo pop açucarado do Kid Abelha do que do rock mais elaborado e politizado de Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira! e Legião Urbana. Essas eram as bandas que meu irmão mais novo escutava, ele que descobriu o rock pauleira muito mais cedo do que eu. Não é que não gostasse dessas bandas, eu as escutava no rádio, na televisão e em casa, quando meu irmão tocava os discos, mas não tinha o mesmo entusiasmo que ele. Na época eu me impressionava mais com os lábios do Paulo Ricardo e seu RPM e com o charme do sexy Dinho Ouro Preto e seu Capital Inicial do que as letras elaboradas de Renato Russo, Arnaldo Antunes, Herbert Vianna e Cazuza. Quem não se lembra da influência que os hormônios exercem sobre as opiniões de um adolescente que jogue a primeira pedra.


Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Marcelo Bonfá formavam a Legião Urbana.


Com a maturidade veio vindo de repente uma vontade de prestar mais atenção nas letras dessa gente toda e foi nascendo a paixão por eles também. Me lembro até do momento em que Renato Russo resolveu assumir sua homossexualidade, já nos anos 90, quando eu já estava cursando minha segunda faculdade, e uma colega disse algo como "Grande novidade! Qualquer um que prestasse atenção na letra de Daniel na cova dos leões já sabia disso." Fui pra casa naquela noite, pus o vinil na vitrola pra tocar o disco Dois (se não sabe o que é vinil ou vitrola pergunte a seu pai), e ouvi aquele disco e aquela canção em particular como se estivesse ouvindo pela primeira vez.


"Aquele gosto amargo do seu corpo

Ficou na minha boca por mais tempo

De amargo e então salgado ficou doce

Assim que o teu cheiro forte e lento

Fez casa nos meus braços

E ainda leve e forte e cego e tenso

Fez saber que ainda era muito e muito pouco

(...)

Teu corpo é meu espelho e em ti navego

E sei que tua correnteza não tem direção."

(Renato Russo e Renato Rocha, Daniel na cova dos leões)


 

Essa semana Renato Russo estaria fazendo 50 anos. Me lembro do dia em que ele morreu: era uma sexta-feira e eu esquentava meu almoço enquanto ligava a tv pra acompanhar o telejornal que a TV Cultura exibia todos os dias ao meio-dia, e que não existe mais. Em meio às manchetes do dia, veio a notícia inesperada: "Renato Russo morre de Aids." Inesperada porque Renato fez segredo de sua doença até o fim, embora em canções como Há tempos ele já dissesse coisas como "Há tempos são os jovens que adoecem", e em A Via Láctea, canção do cd A Tempestade ou O Livro dos Dias, último disco da Legião lançado em vida de Renato, ele dissesse:


"Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz...

Mas não me diga isso...

Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima...

(...)

Eu nem sei por que me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim...

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim..."

(Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Marcelo Bonfá - A via láctea)


Lembro que tentei falar por telefone com minha melhor amiga, alguém que admirava as canções de Renato tanto quanto eu, e também com meu irmão, que descobriu a Legião antes de mim, e ainda por cima viu um dos últimos shows da banda e não me convidou; queria dividir com alguém a dor daquela perda, mas não consegui falar com nenhum dos dois. Esqueci do almoço e fiquei estático no sofá assistindo ao noticiário, e depois fui trabalhar com o coração em pedaços, como se tivesse perdido um amigo muito querido. E de fato tinha.


"Todos os dias quando acordo

Não tenho mais o tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo

(...)

Não tenho medo do escuro

Mas deixe as luzes acesas agora"

(Renato Russo, Tempo perdido)


No ano passado assisti no teatro Coliseu, aqui em Santos, ao espetáculo "Renato Russo, a peça", monólogo musical em que o ator Bruce Gomlevski interpreta de forma assustadoramente convincente o líder da Legião Urbana. Pra mim o momento mais emocionante do espetáculo foi a cena em que o ator, enquanto cantava aquela que é uma das canções mais comoventes não só do repertório da banda mas de toda a música brasileira, Pais e filhos, descia do palco e apertava a mão de quem estava sentado na poltorna do corredor central. Era o meu caso. Fiquei emocionadíssimo, pois embora soubesse que se tratava de um ator, me senti como se o próprio Renato, meu ídolo de tantas canções e tantas poesias, tivesse voltado apenas para apertar minha mão, eu que nunca tive chance de vê-lo no palco.


Bruce Gomlevski como Renato Russo.


"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.

(...)

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você.

O que você vai ser quando você crescer?"

(Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Marcelo Bonfá - Pais e filhos)


 



Escrito por will robinson às 04h04
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Dalida - primeira parte

A artista: Dalida (pronuncia-se Dalidá, com acento na última sílaba), nascida Yolanda Gigliotti na cidade do Cairo, Egito, em 17 de janeiro de 1933; falecida em sua casa em Paris, França, na noite de 2 de maio de 1987.

A minissérie:    Dalida (telefilme francês em duas partes, 2005)
                        Roteiro: Joyce Buñuel, Camille Taboulay e Jérôme Tonnerre
                        Produção: Pascale Breugnot
                        Direção: Joyce Buñuel

Coletânea em cd (uma das várias disponíveis): Dalida - Les années Orlando (versions originales 1970-1997), Orlando/Barclay/Polygram, 1997.

Coletâneas em dvd: Dalida Éternelle, Polygram, 2000
                                 Dalida Passionnément, Polygram, 2004

 

 


"C'est vrai que je suis italienne de naissance égyptienne
C'est vrai, c'est vrai
(...)
Comme le disait la Mistinguett
Je suis comme le bon Dieu m'a faite
Et c'est très bien comme ça
(...)
On peut bien dire ce qu'on voudra
Je ne serais pas Dalida
Si je n'étais pas comme ça!"
(Pascal Sevran, Pierre Delanoë, Jean-Jacques Debout - Comme disait Mistinguett)


(É verdade que sou italiana e nasci no Egito, é verdade... Como dizia a Mistinguett [antiga vedete francesa] sou como o bom Deus me fez, e está tudo bem assim. Podem dizer o que quiserem, eu não seria Dalida se não fosse como sou!)

A primeira vez que ouvi falar de Dalida foi num dos vários discos de músicas francesas que minha mãe, como amante da língua e cultura francesas (amor que ela passou para mim) gostava e ainda gosta de ouvir. A música era "Paroles, paroles", versão francesa de uma famosa canção italiana, cantada em dueto por Dalida e pelo ator Alain Delon.



"Paroles, paroles, paroles,
Paroles, paroles, paroles
Paroles, encore des paroles que tu sêmes au vent..."
(Matteo Chiosso, Giancarlo Del Re, Giovanni Ferrio, versão francesa de Michaele - Paroles, paroles)

(Palavras, palavras, apenas palavras que você semeia ao vento...)

 

Por muito tempo o nome de Dalida ficou sem rosto, associado apenas a essa única canção, até que assisti ao filme 8 Mulheres (8 femmes, de François Ozon, 2002), um musical francês onde cada uma das oito atrizes interpretam uma canção francesa que se encaixa na trama do filme. A canção do filme que mais me marcou foi a interpretada pela personagem da governanta (Firmine Richard), chamada Pour ne pas vivre seul (cuja letra eu transcrevo e traduzo parcialmente no final deste post). Pesquisando sobre o filme, descobri que essa canção pertencia ao repertório de Dalida, e a partir daí fui atrás de saber mais sobre ela e conhecer seu trabalho.

De família e nacionalidade italiana, Yolanda Gigliotti nasceu no Egito em 1933. Depois de uma infância difícil, ela foi eleita Miss Egito em 1954 e se aproveitou de sua beleza para estrelar vários filmes no Egito, usando o nome Dalila. Acreditando que poderia fazer carreira no cinema francês, a jovem se muda para Paris no final de 1954, mas com a dificuldade de encontrar trabalhos como atriz resolve tentar a sorte como cantora e muda seu nome para Dalida. Descoberta por Lucien Morisse, que mais tarde se tornaria seu marido, Dalida começou a fazer sucesso interpretando versões em francês de sucessos italianos e americanos da época. Com o tempo, foi sofisticando seu repertório, aprimorando suas qualidades de intérprete e acabou se tornando uma das cantoras francesas de maior apelo internacional, gravando em várias línguas e se apresentando nos mais diversos lugares do mundo, inclusive no mundo árabe, onde fez grande sucesso com a canção Salma ya Salama. Ironicamente, foi seu sucesso como cantora que lhe permitiu realizar seu sonho de ser atriz de cinema, fazendo vários filmes na França e na Itália, mas foi somente quando resolveu voltar às origens, realizando no Egito o filme Le sixième jour em 1986 com o prestigiado diretor egípcio Youssef Chahine, que ela finalmente teve reconhecido o talento como atriz dramática.

 

"Il venait d'avoir 18 ans
Ça le rendait presque insolent de certitude
Et pendant qu'il se rhabillait
Déjà vaincue, je retrouvais ma solitude
J'aurais voulu le retenir
Pourtant je l'ai laissé partir
Sans faire un geste
Il m'a dit "c'était pas si mal"
Avec la candeur infernale de sa jeunesse
J'ai mis de l'ordre dans mes cheveux,
Un peu plus de noir sur mes yeux par habitude
J'avais oublié simplement que j'avais deux fois dix-huit ans."
(Pascal Sevrian, Serge Lebrail, Pascal Auriat, Jean Bouchety, Il venait d'avoir 18 ans)

(Ele tinha acabado de fazer 18 anos, o que o deixava insolente de confiança. E enquanto ele se vestia, já vencida, eu reencontrava minha solidão. Gostaria de tê-lo retido, no entanto deixei-o partir sem um gesto. Ele me disse "Até que não foi ruim", com a inocência infernal de sua juventude. Dei uma arrumada nos cabelos e retoquei a maquiagem dos olhos só por hábito. Tinha simplesmente esquecido que eu tinha duas vezes 18 anos.)


 



Escrito por will robinson às 00h29
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Dalida - segunda parte

 

Se na carreira profissional Dalida conheceu o sucesso e a glória, o mesmo não acontecia em sua vida pessoal. Seu casamento com o seu descobridor Lucien Morisse terminou pouco depois de oficializado, quando a cantora se apaixonou pelo pintor Jean Sobieski. A briga pública que se seguiu com seu ex-marido fez com que seu irmão mais novo, Bruno, que curiosamente adotou como nome artístico o nome de seu irmão mais velho - Orlando - assumisse o controle de sua carreira. Foi sob a orientação de Orlando que Dalida viveu a melhor parte de sua carreira e ele até hoje devota sua vida a não deixar que o nome da irmã caia no esquecimento.

Em 1967 Dalida defendeu no Festival de San Remo a canção Ciao, amore, ciao, uma letra de conteúdo social escrita pelo inquieto e depressivo cantor e compositor italiano Luigi Tenco, com quem a cantora vivia uma intensa paixão. No entanto, após ver sua canção desclassificada pelo júri do festival, Tenco se suicidou com um tiro na cabeça. Dalida ficou tão abalada pelo acontecimento que tentou ela mesma o suicídio poucos meses depois, chegando a ficar em coma. Depois disso Dalida iniciou uma intensa busca espiritual e intelectual, fazendo terapia junguiana, lendo Freud, viajando à Índia, e tudo isso trouxe um incrível amadurecimento tanto à sua escolha de repertório quanto à sua própria interpretação.

Dalida e Luigi Tenco.

"Avec le temps, avex le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul, peut-être, mais pénard,
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment, avec le temps
On n'aime plus."
(Léo Ferré, Avec le temps)

(Com o tempo tudo se vai, e você se sente inútil como um cavalo cansado, e se sente gelado num leito de acaso, e se sente talvez completamente só, mas paciência, e se sente roubado pelos anos perdidos... Então, na verdade, com o tempo, não se ama mais.)

 

Em 1972 ela conhece Richard Chanfray, um homem intrigante que se dizia alquimista e que se auto-intitulava Conde de Saint-Germain, mas que se revelou um homem instável e ciumento. A relação durou nove anos.

Em 1970, seu primeiro marido, Lucien Morisse, se suicidou, e em 1983 foi a vez de Chanfray tirar a própria vida. Embora ambos na época de sua morte estivessem vivendo com outra mulher e já separados há anos de Dalida, isso não impediu que a cantora ficasse conhecida como alguém que trazia a infelicidade e a morte aos homens que amava.

"J'ai pleuré l'Italien, sa chanson, son refrain
N'était pas terminé quand il s'en est allé
C'est fragile un artiste, depuis mon coeur est triste
Et le magicien fou dans sa boule voyait flou
Il voulait faire encore de mon amour de l'or
Et ses mains de sculpteur dénudaient ma pudeur
Vous, vous aussi
Mal ou bien l'amour vous a grandi
Pour vous, vous aussi
L'homme idéal, chaque fois c'était lui
(...)
Vous, vous aussi
Un jour vous direz: les hommes de ma vie."
(Marie-France Touraille, Lana e Paul Sébastian, Les hommes de ma vie)

(Eu chorei o italiano, sua canção, seu refrão não estavam terminados quando ele se foi, como é frágil um artista, e meu coração ficou triste. E o mágico louco em sua bola de cristal via tudo nublado, ele queria transformar meu amor em ouro, e suas mãos de escultor desnudavam meu pudor. Você, você também cresceu com o amor; você, você também, cada vez achava que o homem ideal era aquele. Você, você também, um dia dirá: os homens da minha vida.)

Os trechos de suas canções que estou traduzindo aqui mostram que Dalida não se envergonhava de chorar suas mágoas em público e cantar letras autobiográficas feitas especialmente para ela. Sua sinceridade e sua lealdade aos amigos algumas vezes lhe custaram caro, como o apoio que deu ao presidente François Mitterrand por amizade, mas que muitos interpretavam como algo mais. Também foi uma das primeiras artistas a simpatizar com a causa homossexual e ser adotada pelos gays como ícone.

No entanto, ao chegar aos 50 anos sem marido e sem poder ter filhos (depois de ter feito um aborto ao engravidar de um jovem estudante italiano nos anos 60), Dalida se sentia um fracasso como mulher, em contraste com o enorme sucesso que desfrutava como artista. Por não saber lidar com essa contradição, acabou tomando uma dose fatal de barbitúricos na noite de 2 de maio de 1987, deixando uma nota que dizia, "Perdão, mas a vida me é insuportável."

"Cet amour me tue, si ça continue,
Je crêverai seule avec moi
Prés de ma radio comme un gosse idiot
Écoutant ma propre voix qui chantera:
Je suis malade, complètemente malade
Comme quand ma mère sortait le soir
Et qu'elle me laissait seule avec mon désespoir"
(Serge Lama, Alice Dona, Je suis malade)

(Esse amor me mata, se isso continuar me acabarei só comigo mesma, perto do rádio como um garoto retardado escutando minha própria voz que cantará: estou doente, completamente doente, como quando minha mãe saía à noite e me deixava a sós com meu desespero.)

A história de Dalida foi contada em forma de ficção no telefilme francês em duas partes que leva seu nome, dirigido pela nora do famoso diretor Luis Buñuel, Joyce Buñuel, com a italiana Sabrina Ferilli interpretando a cantora (dublada com a voz da atriz Vittoria Scognamiglio) e com Charles Berling como Lucien Morisse, Christophe Lambert como Richard Chanfray e Alessandro Gassman como Luigi Tenco, entre outros. Assisti o filme no canal francês TV5 Monde, disponível para assinantes da NET, mas se você não quiser esperar que o canal volte a programar a minissérie em sua grade, pode tentar baixar o filme por aí.

Sabrina Ferilli como Dalida.

"Pour ne pas vivre seul
des filles aiment des filles
et l'on voit des garçons
épouser des garçons
Pour ne pas vivre seul
D'autres font des enfants
des enfants qui sont seuls
comme tous les enfants
(...)
Pour ne pas vivre seul
On se fait des amis
et on les réunit
quand vient les soirs d'ennui
On vit pour son argent
ses rêves, ses palaces
mais on a jamais fait
un cercueil à deux places
Pour ne pas vivre seul
Moi je vis avec toi
je suis seule avec toi
tu es seul avec moi
Pour ne pas vivre seul
On vit comme ceux qui veulent
se donner l'illusion
de ne pas vivre seul"
(Sébastien Balasko, Daniel Fauré, Pour ne pas vivre seul)


(Para não viver só, garotas amam garotas, e alguns rapazes casam-se com rapazes. Outros têm filhos, crianças que serão sós como todas as crianças. Para não viver só fazemos amigos e nos reunimos com eles nas noites de tédio. Vive-se para o dinheiro, para os sonhos, para os palácios, mas nunca se ouviu falar de um caixão com dois lugares. Para não viver só, eu vivo com você, vivo minha solidão com você, você vive sua solidão comigo. Para não viver só, vivemos como aqueles que querem se iludir e pensar que não estão sós.)

 

 

(Tradução dos trechos de canções por will robinson)



Escrito por will robinson às 00h23
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Que canção você ouviria antes de morrer?

As canções: Englishman in New York, escrita e interpretada por Sting, lançada no álbum ...Nothing like the Sun (1987).

                    Under Pressure, escrita por David Bowie, Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor & John Deacon, interpretada por David Bowie & Queen, lançada no álbum Hot Space (1982) da banda Queen.

                    Angels, escrita por Robbie Williams & Guy Chambers, interpretada por Robbie Williams, lançada no álbum Life thru a lens (1997).

"Que canção você gostaria de ouvir no momento antes da morte?", era a pergunta infalível que o cantor-empresário-apresentador Zé Maurício Machline sempre fazia aos artistas que compareciam ao programa que ele tinha, se não me engano, na Rede Manchete.

Várias vezes parei para pensar no assunto. Se tomada ao pé da letra, a pergunta é impossível de ser respondida, a não ser por alguém que esteja literalmente em seu leito de morte. Como nossa vontade de ouvir determinada canção, determinado estilo ou determinado artista varia muito de acordo com nosso estado de espírito, como prever como estaremos nos sentindo no momento da morte, e assim escolher a trilha sonora adequada? Claro, seria muito diferente escolher uma trilha sonora para o próprio funeral, mas não era essa a pergunta de Machline.

Cheguei à conclusão de que a pergunta no fundo significava "Qual canção seria tão importante para você, que seria a última coisa que você gostaria de ouvir antes de fechar os olhos para sempre?" Ou seja, uma maneira mais elaborada e mais mórbida de perguntar "Qual a sua canção favorita?"

Também parei pra pensar na resposta, a qual também muda conforme a época ou o meu estado de espírito. Uma vez escrevi um conto chamado Tsunami (espero que um dia seja publicado, mas por enquanto ele só existe na minha gaveta). Nesse conto fiz meu protagonista se preparar para a morte ouvindo literalmente a canção que ele (ou seja, eu) tinha escolhido para aquele momento, e a canção era Englishman in New York, do Sting.



 

Vários motivos para escolher essa música: além das boas lembranças que ela me traz (algumas das quais emprestei ao meu personagem do conto), a canção fala de alguém que se sente meio desajustado no meio em que vive. Um inglês que mora em Nova Iorque significa alguém que fala a mesma língua do lugar, que teoricamente habita uma cidade cosmopolita e portanto preparada para lidar com as diferenças, mas mesmo assim está condenado a nunca se sentir completamente em casa. Mais ou menos o sentimento que me acompanha por toda a vida -- e que me levou a nomear meu blog principal de Lost in Space.

"I don't drink coffee I take tea my dear
I like my toast done on one side
And you can hear it in my accent when I talk
I'm an Englishman in New York"


O narrador da canção já começa chamando a atenção para suas diferenças: não bebe café, e sim chá, e seu sotaque não deixa ninguém se enganar quanto à sua nacionalidade. Na verdade o inglês Sting não está falando de si mesmo, ele fez a canção em homenagem ao seu compatriota, o escritor e ator Quentin Crisp (1908/1999), quando este, já octogenário, decidiu se mudar de Londres para Nova Iorque. Crisp (que aparece no vídeo da canção) foi, pode-se dizer, o avô das atuais drag queens: ousou assumir sua homossexualidade e vestir roupas femininas numa época em que "o amor que não ousava dizer seu nome" era punido com prisão. Não é à toa que Sting diz em seus versos: "É preciso ser homem para sofrer ignorância e sorrir -- Seja você mesmo, não importa o que digam."

 



"Takes a man to suffer ignorance and smile
Be yourself, no matter what they say.
I'm an alien, I'm a legal alien
I'm an Englishman in New York."



Agora, quando o meu estado de espírito exige algo um pouco mais, digamos, pesado do que uma balada pop-jazzística, aí a música que eu gostaria de ouvir antes de morrer seria Under Pressure, parceria de dois gênios do rock, o camaleão David Bowie e o líder da banda Queen, o saudoso Freddie Mercury. Ao contrário da canção de Sting, não é por causa da letra que eu amo essa música, é o ritmo mesmo, o contagiante riff de baixo de John Deacon, a mágica química das vozes de Mercury e Bowie juntas num dueto inesquecível.

"It's the terror of knowing
What this world is about
Watching some good friends
Screaming 'Let me out'
Pray tomorrow - gets me higher
Pressure on people - people on streets"

 



É uma pena que não haja nenhum registro em vídeo dos dois gênios do rock cantando a música juntos, já que o videoclip promocional da música não mostra os músicos e Bowie nunca subiu ao palco com o Queen enquanto Freddie era vivo, só veio a fazê-lo depois, num tributo ao falecido cantor, quando então cantou Under Pressure acompanhado pela maravilhosa Annie Lennox.


Nunca tive oportunidade de ver o Queen ao vivo, mas quando David Bowie fez show em São Paulo nos anos 90, eu estava lá. Bowie estava numa fase drum&bass que não me agradava muito, mas só o fato de ter cantado Under Pressure com sua baixista Gail Ann Dorsey fazendo com muita competência os vocais que seriam de Mercury, fez com que essa noite ficasse gravada na minha memória como uma das noites mais mágicas e inesquecíveis que já vivi.


"Can't we give ourselves one more chance
Why can't we give love that one more chance
Why can't we give love (...)
'Cause love's such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the edge of the night
And love dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is our last dance
This is ourselves
Under pressure"

Embora Bowie e Mercury nunca tenham cantado Under Pressure juntos ao vivo, algum geniozinho da Internet teve a idéia de unir os dois de forma virtual, juntando imagens de shows diferentes como se fossem o mesmo. O resultado é bem convincente, como pode ser visto aí em cima.


Nos últimos anos adicionei mais uma canção à lista "Músicas que gostaria de ouvir antes de morrer". Trata-se da inesquecível balada Angels, parceria do pop star britânico Robbie Williams com Guy Chambers. Ex-integrante da boyband Take That, Robbie, que não era um dos vocalistas principais da banda, saiu do grupo em meio a brigas e acusações de que ele estaria sendo vítima de perseguições por parte do empresário da banda por estar acima do peso e por ser viciado em drogas e álcool. Depois de uma passagem por uma clínica de reabilitação, Robbie se lançou a uma carreira solo cercada de descrédito, até que Angels, faixa de seu primeiro disco Life thru a lens, se tornou um sucesso mundial. O resto é história: Robbie Williams é hoje um dos principais nomes da música pop em todo o mundo, menos nos Estados Unidos, onde seus discos nunca emplacaram. Na minha opinião ele deveria reivindicar a coroa de "rei do pop" deixada vaga por Michael Jackson (na verdade o nada modesto Robbie já vinha se auto-intitulando como tal muito antes da morte de Jackson), pois se trata de um entertainer nato, da mesma estatura de Madonna, com a ressalva de que Madonna se cerca de dançarinos, fogos de artifício e efeitos especiais para fazer seu show, e Robbie não precisa de nada disso, basta-lhe seu próprio carisma e uma banda profissional para o jovem inglês brilhar.

 



Uma característica que une Robbie e Madonna  são as letras confessionais. Os detratores de ambos (pois o sucesso atrai o ódio dos críticos na mesma proporção que o amor dos fãs) nunca prestaram atenção suficiente na arte poética tanto da americana quanto do inglês. No caso particular de Angels, Robbie purgava na canção todo o sofrimento que passava na época e agradecia o amor de pessoas especiais em sua vida como responsáveis por sua sobrevivência como ser humano e espiritual. Não é à toa que a canção fez tanto sucesso em todo o mundo e mereceu tantas regravações e versões, permanecendo nos shows de Robbie até hoje, geralmente usada por ele para encerrar o espetáculo, cantando a primeira estrofe e deixando que o público, geralmente milhares de pessoas, entoem o resto da canção num coro uníssono. É que a noção de que estamos protegidos por anjos, e de que esses anjos, independentemente de qualquer convicção religiosa, seriam as pessoas que amamos e que nos amam, é universalmente reconfortante e alentadora. E por isso mesmo se torna uma das músicas que eu gostaria de ouvir antes de morrer, para poder ir embora desse mundo pensando nos meus anjos, nos meus familiares e amigos que tornaram e tornam a vida mais fácil de ser vivida.


"I sit and wait
Does an angel contemplate my fate
And do they know
The places where we go
When we're grey and old
'Cos I've been told
That salvation lets their wings unfold
So when I'm lying in my bed
Thoughts running through my head
And I feel that love is dead
I'm loving angels instead

And through it all she offers me protection
A lot of love and affection
Whether I'm right or wrong
And down the waterfall
Wherever it may take me
I know that life won't break me
When I come to call
She won't forsake me
I'm loving angels instead

When I'm feeling weak
And my pain walks down a one way street
I look above
And I know I'll always be blessed with love
And as the feeling grows
She breathes flesh to my bones
And when love is dead
I'm loving angels instead

And through it all she offers me protection
A lot of love and affection
Whether I'm right or wrong
And down the waterfall
Wherever it may take me
I know that life won't break me
When I come to call
She won't forsake me
I'm loving angels instead"


Neste vídeo você vê Robbie Williams interpretando Angels no prestigiado programa do britânico Jools Holland, com o acompanhamento luxuoso do próprio apresentador ao piano e da americana Bonnie Raitt num lindo solo de guitarra.

 



Escrito por will robinson às 21h50
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Já olhei para a vida dos dois lados, e mesmo assim... não sei nada da vida

A artista: Joni Mitchell, cantora, compositora, musicista e artista plástica canadense, nascida em 1943.


As canções: River, composta e interpretada por Joni Mitchell no álbum Blue (1971), também disponível na coletânea Hits (1996).
                    Both Sides Now, composta e interpretada por Joni Mitchell no álbum Clouds (1969), também disponível na coletânea Hits (1996); a regravação da mesma canção, com novo arranjo e acompanhamento orquestral, está no álbum Both Sides Now (2000) e também na trilha sonora do filme Love Actually (2003).


Os filmes: Simplesmente amor (Love actually, Reino Unido, 2003), escrito e dirigido por Richard Curtis, produzido por Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy.
                 Um grande garoto (About a boy, Reino Unido, 2002), escrito por Peter Hedges, Chris Weitz e Paul Weitz baseados no livro de Nick Hornby, produzido por Tim Bevan, Robert De Niro, Brad Epstein, Eric Fellner, Jane Rosenthal, dirigido por Chris Weitz e Paul Weitz.


A série: Anos Incríveis (The Wonder Years, EUA, 1988-1993), criada por Carol Black e Neal Marlens.


O livro: About a boy, de Nick Hornby (1998).


O dvd: Painting with words and music (EUA, 1998), show e entrevista com Joni Mitchell, produzido por John Brunton, dirigido por Joan Tosoni.



"It's coming on Christmas
They're cutting down trees
They're putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
Oh I wish I had a river
I could skate away on
(...)
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby cry"

(Joni Mitchell, River)

No filme Simplesmente amor há uma cena em que a personagem de Emma Thompson ouve uma música de Joni Mitchell chamada River, que fala de uma mulher triste na noite de Natal porque terminou seu relacionamento. Com versos como esses: "Gostaria de ter um rio onde pudesse patinar para bem longe daqui, um rio tão longo onde pudesse ensinar meus pés a voar bem alto...", a música ecoa o que está prestes a acontecer com a personagem. Aí o marido da personagem, interpretado por Alan Rickman (que dirigiu Emma Thompson no filme Momento de afeto -- The winter guest, um de meus filmes favoritos, mas isso é assunto pra outro blog), demonstra sua falta de sintonia com a mulher perguntando: "Você ainda escuta Joni Mitchell?" Claro que a pergunta é uma heresia, seria a mesma coisa que perguntar "Você ainda escuta os Beatles?", ou mesmo "Você ainda escuta Mozart?". Joni Mitchell, como todos os grandes artistas, é eterna, mas ainda há quem a identifique apenas com a folk music dos anos 60.



Tomei contato com a música da artista canadense através da série Anos incríveis (The Wonder Years), transmitida pela TV Cultura nos anos 90. Pra quem não sabe ou não se lembra, a série mostrava o cotidiano de um garoto chamado Kevin Arnold (Fred Savage), na difícil passagem pela adolescência, durante os turbulentos anos 60. Eu, que sempre fui fascinado por essa época que não vivi (afinal nasci no finalzinho dessa década), através da série fiquei ainda mais apaixonado, e tomei contato com muito do que era feito em termos de música naqueles anos. Joan Baez e Joni Mitchell eram frequentes na trilha sonora de Anos incríveis e isso bastou para despertar em mim um amor incondicional pelas duas cantoras folk.



De Joni Mitchell adquiri dois álbuns de coletânea da artista, um chamado Hits, reunindo os sucessos, e outro chamado Misses, com músicas que não fizeram sucesso mas estavam entre as favoritas da cantora. Os dois álbuns cobrem um período que vai do final dos anos 60 até os anos 90, sempre com Joni demonstrando sua voz cristalina, suas letras poéticas e confessionais, e seu talento de violonista e pianista. Depois disso adquiri um cd de Joni Mitchell chamado Both sides now, de 2000, em que a artista retrata um relacionamento amoroso desde o começo até o fim através de canções, onde apenas duas são de sua autoria. Confesso que fiquei um tanto chocado, ao ouvir esse álbum, com a mudança na voz de Joni, aqui muito mais soturna e grave, em alguns momentos lembrando Billie Holliday. Não gosto muito dos arranjos do álbum, onde Joni canta acompanhada por uma orquestra sinfônica, o que torna tudo muito pesado e meio redundante.



Mas esse mesmo álbum desempenha um papel importante no filme Simplesmente amor, na cena em que Emma Thompson, Alan Rickman e filhos trocam presentes de Natal. Emma espera ganhar do marido um colar de ouro, que ela sabe que ele comprou escondido, mas ao invés disso recebe o cd Both sides now. A personagem compreende na mesma hora que o colar era para a amante do marido, e vai para o quarto chorar, na cena mais comovente do filme, ao som justamente da voz grave de Joni Mitchell interpretando a canção-título do álbum, uma música que faz uma reflexão de alguém que já viveu "os dois lados" de um relacionamento e mesmo assim conclui não conhecer nada sobre o amor.

Joni Mitchell também desempenha um papel importante no livro About a boy, Um grande garoto em português, escrito por Nick Hornby (veja o post anterior). No livro o garoto Marcus adora Joni Mitchell, que ouve por influência da mãe, mas se sente marginalizado das outras crianças de sua idade que não têm a menor idéia de quem é Joni Mitchell e só escutam rock e rap americano. Com a ajuda de Will, um adulto imaturo que finge ter um filho para paquerar mães solteiras, Marcus aprende a gostar de outros estilos de música, principalmente Nirvana, a banda favorita da garota de quem gosta, Ellie. O detalhe é que Marcus não gosta muito de rock, mas se força a aprender a gostar para compreender melhor a garota por quem está apaixonado.

Quem viu a adaptação desse livro para o cinema certamente não sabe desses detalhes, já que os adaptadores simplesmente omitiram qualquer menção a Joni Mitchell ou a Nirvana no filme, embora ambos desempenhem papel fundamental no livro. É por essa e outras razões que eu afirmo que o filme Um grande garoto é medíocre, coisa que quem não leu o livro não consegue entender. O fato é que no livro o garoto Marcus, para ser aceito por seus semelhantes, acaba por renegar a admiração que tinha por Joni Mitchell, coisa meio triste, mas natural na adolescência, onde tudo o que queremos é ser aceitos. Espera-se que, terminado o romance, o garoto cresça e chegue ao estágio onde conclua que pode gostar de Joni Mitchell e de Nirvana ao mesmo tempo e não ter de pedir desculpas por isso.

Lembrei disso tudo ao assistir ao DVD Painting with words and music, um show de Joni Mitchell feito para a TV americana no final dos anos 90. Em grande forma, a cantora não só relembra algumas das canções que marcaram sua carreira como mostra um pouco de seu trabalho como artista plástica (as capas de quase todos os seus álbuns são de pinturas dela, principalmente auto-retratos), e ainda delicia a platéia com histórias divertidas e observações pertinentes sobre a sociedade, demonstrando sua inteligência e sua postura crítica. Em uma das histórias, por exemplo, a artista conta que conheceu Georgia O'Keeffe, pintora americana, que aos 90 anos lamentava nunca ter aprendido a tocar violino, porque nunca lhe disseram que alguém, especialmente uma mulher, pudesse ser pintora e violinista ao mesmo tempo. Joni Mitchell, uma artista "renascentista" em suas próprias palavras, nunca precisou que ninguém lhe dissesse o que ela podia fazer.


Both Sides Now
(JONI MITCHELL)

"Rows and flows of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
I've looked at clouds that way
But now they only block the sun
They rain and they snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way

I've looked at clouds from both sides now
From up and down, and still somehow
It's cloud illusions I recall
I really don't know clouds at all

Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way that you feel
As every fairy tale comes real
I've looked at love that way
But now it's just another show
And you leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know
Don't give yourself away

I've looked at love from both sides now
From give and take, and still somehow
It's love's illusions I recall
I really don't know love
Really don't know love at all

Tears and fears and feeling proud
To say "I love you" right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I've looked at life that way
Oh but now old friends they're acting strange
And they shake their heads
And they tell me that I've changed
Well something's lost but something's gained
In living every day

I've looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It's life's illusions I recall
I really don't know life at all

It's life's illusions I recall
I really don't know life
I really don't know life at all "


Texto publicado originalmente no blog Lost in the movies em 06/01/2004.



Escrito por will robinson às 17h24
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Digging...

A canção: You had time, composta e interpretada por Ani DiFranco no cd Out of range, 1994, gravadora Righteous Babe Records

O cd: Our little corner of the world (Music from Gilmore Girls), 2002, gravadora Rhino

O livro: Songbook (31 songs... and 15 albums), de Nick Hornby, Riverhead Books, New York, 2003

"Obscuras bandas européias de rock progressivo (...) foram uma fase. Uma entre muitas. Eu logo aderi ao punk da época [anos 70], o que me levou a explorar as bandas de garagem que deram origem ao punk nos anos 60, o que me levou ao pop mais melódico tipo The Zombies e The Kinks, o que me fez lembrar dos meus velhos discos dos Monkees, o que me levou a reavaliar o gosto musical de meus pais, o que me levou a Sinatra e música para coquetéis e musicais da Broadway com sua ênfase nas letras, o que me levou ao rap com sua ênfase nas letras, o que me levou a todos os tipos de música num interminável ciclo de mergulhar no passado sem abandonar o presente, lendo revistas especializadas, vasculhando lojas de discos, indo atrás de algo pra escutar, seja qual for sua forma.

Os personagens da série Gilmore Girls amam música como nós. Eles elogiam bandas que adoram e detonam bandas que odeiam. Eles sonham em tocar teclados para Siouxsie & The Banshees e guitarra para os Foo Fighters. Eles juram algo pela vida do vocalista do Blur ou pela alma da Nico, e tentam descobrir se seu mau-humor está mais para Nick Cave ou mais para Johnny Cash. Eles compram música e debatem música e avaliam a personalidade de alguém baseados somente na coleção de cds da pessoa (e quem não faz isso?). (...) Eles sâo proselitistas do pop, como qualquer amante de rock'n'roll, porque quando você ama uma banda ou uma música, você quer que os outros a amem também, você precisa que os outros a amem também, eles têm que amá-la também, ou então -- bem, ou então você tenta de novo outra hora com outra banda que você tem que compartilhar com eles. Uma vez que você entra nesse interminável ciclo de proselitismo, você não sai nunca mais. Não até que a palavra seja ouvida."
(DANIEL PALLADINO, "Digging", no encarte do cd Our little corner of the world, trilha sonora da série Gilmore Girls, tradução de will robinson)



A série Gilmore Girls, ou Tal mãe, tal filha, como foi batizada em português, tinha como tema o relacionamento quase fraternal entre mãe e filha (Lauren Graham e Alexis Bledel) que pareciam mais irmãs ou melhores amigas. A série, criada pela produtora e roteirista Amy Sherman-Palladino, tinha como principal atrativo seu texto extremamente bem-escrito e seus personagens leves e cativantes. Mas meu tema aqui não é exatamente a série. O que quero dizer agora é que, por gostar tanto dessa série, comprei o cd com a trilha sonora (que é bem legal, por sinal), infelizmente importada, por não ter sido lançada no Brasil. E no encarte encontrei essa pérola, escrita pelo roteirista e produtor da série (e marido da criadora Amy) Daniel Palladino. Com o título de "Digging", que literalmente quer dizer "cavando", mas no contexto significa algo como "indo atrás", o Daniel simplesmente conseguiu traduzir em palavras aquilo que eu sempre senti mas nunca soube explicar. Nunca soube o que dizer para as pessoas que entram na minha casa e ao ver o tamanho da minha coleção de cds, perguntam assustados: "Mas você é louco?!!!" Talvez eu seja louco mesmo, por gastar boa parte do meu salário em cds e dvds, em vasculhar lojas e lojas atrás dos cds mais raros, em procurar cds antigos em lojas de cds usados, em importar cds não lançados no Brasil, em pedir a amigos que façam o download de músicas mais inacessíveis na Internet [esse texto foi escrito quando eu ainda não dispunha de acesso próprio à Internet], em manter em bom estado minha coleção de LPs de vinil e minha vitrola para tocá-los, pelo simples fato de que muitos deles nunca foram lançados em cd. Deve ser loucura sim, mas uma loucura saudável, que me alimenta e me energiza, e faço questão de cultivá-la.

Pois encontrei uma alma gêmea igualmente louca por música no escritor inglês Nick Hornby. Quem leu seus romances Alta Fidelidade (High Fidelity) e Um grande garoto (About a boy), ambos adaptados para o cinema com resultado razoável no primeiro caso e medíocre no segundo, sabe do que estou falando. Hornby tempera seus livros com um amor pela música pop e um conhecimento sobre o tema que saltam aos olhos. Por isso, quando vi na livraria seu lançamento 31 songs, ou Songbook na versão em paperback (disponível em português como 31 canções), não pensei duas vezes.

Trata-se exatamente do que o título descreve: são ensaios sobre as 31 canções favoritas de Nick Hornby, por razões que tanto podem ser absolutamente pessoais quanto estéticas. Entre as canções citadas, as únicas que eu conhecia eram Thunder road de Bruce Springsteen e I'm like a bird de Nelly Furtado. Aliás, para quem estranhar a inclusão do sucesso descartável da canadense Nelly nesse livro, Hornby dá uma bela explicação, que termina assim: "Eu estava na sala de espera de um médico outro dia, e quatro garotinhas afro-caribenhas, esperando pacientemente a mãe terminar a consulta, de repente se puseram a cantar a música de Nelly Furtado. Cantaram com tanta perfeição, e com movimentos de dança tão graciosos, e com tanta alegria e apetite, e eu gostei que tivéssemos algo em comum, pelo menos temporariamente; senti como se todos vivêssemos no mesmo mundo, e isso não acontece com tanta frequência." (tradução de will robinson)

Quanto às demais 29, pedi a um amigo que tentasse fazer o download delas na Internet. Ele me fez um cd de dez músicas, sendo uma repetida na voz de outro cantor, outra que não estava na lista e as duas que eu já conhecia. [Tempos depois um casal de amigos me deu um belo presente: TODAS as canções do livro disponibilizadas em 2 cds!] Mas as seis que entraram de lucro já serviram pra dar uma idéia do ecletismo do escritor, e pelo menos uma delas, chamada You had time da americana Ani DiFranco, já entrou para a minha lista de canções inesquecíveis. Na verdade após ouvi-la eu me lembrei de que já a tinha escutado antes, na trilha sonora do belo filme Assunto de meninas (Lost and delirious).


 Como explica o próprio Hornby, "O que dá a You had time o seu valor é que, enquanto a maioria das canções sobre separação é triste e dolorosa, esta é sobre indecisão e inércia. A narradora acaba de voltar de uma turnê; seus dedos e sua voz ardem, então presumimos que se trata de uma cantora e violonista (perdoe-nos, Ani, se estivermos confundindo ficção e autobiografia). Fica óbvio que, enquanto estava viajando, a narradora deveria ter tomado uma decisão sobre continuar ou não seu relacionamento, e o título da canção [Você teve tempo] seria a previsível resposta de seu companheiro" [ou companheira, já que Hornby parte do princípio de que se Ani DiFranco é lésbica, sua personagem na música também deve ser, embora a letra não tenha nenhuma indicação disso]. "De qualquer maneira, a narradora teve tempo de pensar mas não chegou a uma conclusão... Embora nas entrelinhas fique claro que ela chegou, sim, a uma conclusão negativa, como indicam esses versos ternos e tristes: "Você é uma loja de porcelana e eu sou um touro, você é comida muito boa e eu estou satisfeita"... Não é generosa? Quantos de nós não gostariam de levar um pé na bunda com palavras assim? Mas a canção termina em suspense, com nada resolvido, e eu duvido que Ani DiFranco algum dia consiga escrever outra canção tão bonita e emocionante." O que ajuda a tornar essa canção tão bonita é que ela é tocada com apenas dois instrumentos: Há uma longa introdução no piano, depois entra a voz de Ani acompanhada apenas de um violão, e o piano se junta ao violão na última estrofe, o que levou uma amiga a quem mostrei essa música a indagar se isso não seria uma indicação de que os dois personagens continuariam juntos, apesar de tudo. Uma sutileza que escapou a Hornby.


Texto original publicado no blog Lost in the movies em 15/11/2003.



Escrito por will robinson às 18h34
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